Somos livres, somos livres

O vinte e cinco de abril é essa história que eu recebi em segunda mão, porque no vinte e cinco de abril eu não existia ainda em lado nenhum. Essa história chega em segunda mão contada pela minha mãe que me garantiu que nesse dia logo pela manhã estava no Porto e não conseguiu passar a ponte para Gaia porque os militares lhe disseram sorrindo que havia uma revolução. Ela e as colegas acharam tudo tremendamente excitante. Essa história em segunda mão é também contada pelo silêncio dos meus tios que foram à guerra em África e que ficaram por lá seis meses, um ano, dois anos, três anos, mas que nunca nesses quase quarenta anos em que os conheço fizeram uma observação sequer a toda essa experiência, como se nunca tivessem visto o tom castanho da terra ou cheirado a chuva na terra seca ou posto os olhos nas coisas inomináveis. E, é por causa das coisas inomináveis que eles não falam, eles não falarão nunca. Essa guerra ficou toda lá, do outro lado do mar, no hemisfério sul. O vinte e cinco de abril tem outras histórias proibidas na minha família, como a do outro tio que foi preso político e só de escrever isso me encolho toda porque a minha avó ficaria arreliada se soubesse que falo de tais coisas num sítio público, se soubesse que todos vocês iriam ouvir essa história abafada, que eu descobri também por acidente quando era criança. Quem conhece o meu tio-herói agora – tão burguês, tão lustroso – nunca poderia adivinhar seu passado de rebelde argentino, só que sem o romantismo. Essa história em segunda mão chega todos os anos nas reportagens da televisão cada vez menos apaixonadas, não sei se é só impressão minha mas, nessas imagens, a emoção dos militares bonitos está perdendo o brilho e ficando distante como uma relíquia. E, entretanto, vocês já devem ter reparado que apagaram também os murais revolucionários pela cidade. Tenho saudades desses murais, quando era criança ficava muito tempo tentando compreender o que queriam dizer. Mas. Independentemente de tudo, independentemente dos cravos ao peito ou da recusa obstinada em pô-los ao peito, dizem-nos que somos livres, que somos finalmente livres. Nós que vamos no autocarro com a boca fechada, que damos mergulhos na praia, que usamos mini-saia, que fazemos arroz malandro, que esperamos na fila do supermercado, que temos fotos tipo passe, que fazemos pagamentos no multibanco, que queremos muito fazer férias na praia, que ficamos parados no trânsito, que escrevemos a ata da reunião, que temos uma morada fiscal. Dizem que somos livres. E, no entanto, descobrimos todos os dias o que podemos ou não dizer, descobrimos todos os dias o que é correto pensar, descobrimos todos os dias o devemos fazer. Dizem que somos livres. Mas descobrimos, todos os dias, mil maneiras de nos sentirmos presos.

(Texto publicado originalmente no Lifecooler. Passem por lá)

(Imagem. Salgueiro Maia, who else?)

SalgueiroMaia_AlfredoCunha18882.jpg

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4 comments

  1. Ahahah 🙂 Estou temporariamente menos disponível, mas com toda a intenção de voltar. Muito obrigada pela mensagem, Cláudia. Um abraço! Joana

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