Sábado de manhã, no parque infantil

Se vocês acham que o campeão de Fórmula 1 tem uma vida stressante, se acham que domador de leões tem uma vida stressante, se acham que a cirurgiã manuseando o bisturi tem uma vida stressante, se acham que a juíza antes de condenar o contabilista à pena de prisão tem uma vida stressante, então deviam ver como sofre a Leonor. Logo às nove da manhã, nessa imensa claridade, a Leonor está no parque infantil com chapéu de abas e casaco de malha para proteger da aragem. Na entrada, a mãe aplica de novo protetor solar na ponta do nariz, nas bochechas e nos braços. Puseste nas pernas? pergunta o pai. A mãe aplica mais protetor nas pernas. A Leonor solta-se como uma borboleta na direção do escorrega, mas o pai agarra-a e esclarece: Primeiro o baloiço. A Leonor esperneia. O pai de novo: Não sejas mal-educada. Coloca-a no baloiço. Leonor fica imóvel, como se fosse de novo casulo, o pai e a mãe comandam: Estica as pernas, agora encolhe. Agora estica de novo. Tens que encolher e esticar para dar balanço. A Leonor obedece. Acho que vais ter que dar impulso, ela não está a conseguir, pede a mãe comendo a unha com os lábios. O pai empurra. E empurra de novo. Estica a pernas, Leonor, pede a mãe. E segura-te bem, Leonor, já disse para te segurares nas correntes. A mãe trava o baloiço: O chapéu está torto. A mãe corrige as abas do chapéu e o pai volta a empurrar. Estás bem disposta? Não achas que ela está pálida? Leonor, queres sair do baloiço? Leonor, filha, responde. A Leonor guincha. Já te disse que não sejas mal-educada com a mãe. O pai tira-a do baloiço. A Leonor guincha mais, o líquido sobrando nas pálpebras, não é dor, é raiva mesmo. Ele queria comer pedras, ela queria cair na areia, ela queria lamber a cerca do lago dos patos. Pedro, senta-a no baloiço. O pai, todo fogo, senta a filha de novo. Queres andar mais, meu amor? Então estica as pernas, agora encolhe. Muito bem. O pai e a mãe trocam olhares ansiosos. Os miúdos da turma dela já andam muito melhor de baloiço, comenta a mãe e essa flecha certeira fere o pulmão do pai. O pai tira então as mãos do baloiço: Estica as pernas, Leonor, eu não te ajudo mais. Estás por tua conta. A mãe, muito tensa, tira um iogurte da mala. Será que ela está com fome? Tens fome, meu amor? A Leonor guincha de novo. E ainda só são nove e dez.

(Imagem: Vinicius de Moraes e Helô Pinheiro, a verdadeira Garota de Ipanema)

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