Pupilas

Meados de setembro, eu soube que estava fazendo os mesmos erros de sempre. Eu limpava e alimentava o bebé, levava-o ao passeio, tirava os dedos pequeninos das fichas elétricas e pensava sempre nele quando me ausentava da casa, mas esquecia-me de lhe sorrir e de apertar o sítio secreto na coxa direita que o faz soltar o riso dobrado. Estava a apressar tudo de novo. Eu corria os dez mil metros pensando em cortar a meta, mas na verdade não sou atleta não. Sou só uma corredora de fim de semana e como tal devo correr sobretudo para apreciar a paisagem. Então, esta manhã, enquanto adormecia o bebé, não pensei na sopa ao lume, nem nas referências do multibanco, nem na vontade louca que tinha de ficar esquecida no sofá como se fosse uma manta. Esta manhã, enquanto o adormecia, alisei-lhe o cabelo fino com a mão e olhei-o fixamente. Ele olhou de volta espantado com essa intensidade. E investigando, olhou primeiro muito tempo o meu olho esquerdo. Depois, muito tempo o olho direito. E sorriu. É que ele tinha visto como as minhas pupilas dilatavam e os meus olhos escureciam e soube reconhecer os sinais universais do amor.

(Quadro: Popcorn de Max Ferguson)

Ferguson, Popcorn, 2015, oil on panel, 30 x 44 inches LR_1_01190816

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