Não vai dar para ir à Riviera Maya

Como é que é outra vez? Vocês estão a dizer que mesmo trabalhando cinco dias por semana – e até o sábado ou domingo ocasional – eu não vou conseguir comprar o Audi A5 Sportback que aparece naquele anúncio com uma ponte ao pôr-do-sol? Não acredito. Não acredito que mesmo com todas as horas extraordinárias que eu nunca cobro, porque ninguém faz mais isso nos dias que correm, mesmo com aqueles e-mails que eu fico respondendo às onze da noite ou até às três da madrugada quando o meu olho me acorda sofrendo de insónia, não vai dar para ficar oito dias e sete noites na Riviera Maya, num resort tudo incluído, a beber mojitos na beira da piscina. Não acredito que mesmo tendo terminado os relatórios do fim do ano fiscal em tempo recorde – meu chefe deu até os parabéns em frente à equipa toda – que mesmo assim não vai dar para pagar o escalope de foie gras no restaurante que tem a estrela Michelin. Mesmo sem nunca faltar ao emprego – e ir trabalhar até naquele dia em que estava com uma pontinha de febre – não vou conseguir fazer madeixas loiras no cabeleireiro, nem massagens com pedras quentes no spa que abriu junto da praceta, não vai dar para pagar as consultas de nutrição, nem para aquele relógio sofisticado que todos usam agora, acho que mede até o ritmo cardíaco e eu adorava saber o meu ritmo cardíaco em todas as alturas do dia. Por exemplo, neste preciso momento, eu não sei o meu ritmo cardíaco e essa falta de informação está a deixar-me louca, como é possível viver assim? Mesmo indo todos os dias de comboio para o trabalho para economizar – e isso custa porque o comboio tem um terrível cheiro a alho logo de manhã – mesmo pagando o gás e a água a tempo e mesmo usando aquela coisa do bi-horário para poupar na luz, não vou conseguir pagar a mensalidade de ginásio, e sim, eu sei que estão fazendo desconto de trinta por cento para quem começar em setembro, eu sei que oferecem até uma t-shirt cor de chiclete, toda gostosa, mas não vai dar. Eu devo estar a viver a vida errada, porque todos esses anúncios que caem como granadas nos intervalos do meu dia estão muito acima das minhas possibilidades.

(Imagem: Uma foto pequenina que Norman Parkinson tirou para a Vogue inglesa em Portugal em 1973)

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