O pêlo rebelde

No outro dia fui ao médico porque – bem, não há uma maneira fixe de dizer isto – tenho um pêlo rebelde a nascer no queixo. Preto. Eu sei, isto é partilhar pormenores da minha vida que vocês não têm de saber. Que vocês não querem saber. Que vocês realmente dispensam. Que mau gosto. Mas, ninguém disse que isto eram só coisas bonitas e, definitivamente, o pêlo que me nasce de vez em quando no queixo não é uma temática simpática. Contudo, o problema existe e eu arranco-o impiedosamente com uma pinça. E de todas as vezes acho que nunca mais o vou ver. Até que ele volta. Preto e determinado. E se este for o primeiro de muitos?

Fui ouvir a médica. Ela achou normal. Disse que era da idade. Disse depois dos 35 e deixou a frase em suspenso. Depois dos 35, entramos naquela idade misteriosa em que tudo pode acontecer. O corpo passa por outra espécie de adolescência e requer cuidados redobrados. Depois dos 35 nascem pêlos pretos no queixo. Depois dos 35 aparecem pequenas rugas. Depois dos 35 há cabelos brancos. Depois dos 35 ganhamos peso em sítios estranhos. Depois dos 35 temos que fazer exames anuais. Depois dos 35 os nossos braços ficam flácidos. E, não é só gordura, não é só descuido. É flacidez mesmo. O corpo envelhece precocemente, porque na cabeça continuamos a ser tão jovens. Como é que o nosso corpo não percebe isso? Os dias amanhecem e ele não para de nos surpreender. É como se tivesse deixado de nos conhecer. E nós ficamos frente ao espelho, de pinça na mão, a tentar fingir que nada se passa.

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