Sobre o casaco

Dantes dava para usar o casaco. Dantes o casaco fazia todo o sentido. Fazia sentido porque era XS, que era a etiqueta que me servia nas lojas, não ficava grande nem nos ombros, nem as mangas. Fazia sentido porque havia noites frias de festival de verão, porque havia jantar exótico no vietnamita, porque o meu trabalho pedia um casaco de cabedal preto com padrão de brilhantes do lado direito, como se uma estrela tivesse explodido e o casaco tentasse a custo conter todos os pedaços, mas ao fazê-lo revelasse sobretudo a sua glória cósmica. Esse era o casaco rebelde que os Whitesnake usariam em palco com seus longos cabelos loiros e frisados e com jeans justinhos de cortar a circulação, enquanto cantavam Here I go again lá em mil novecentos e troca o passo. É, esse casaco era irónico também, porque piscava o olho aos prazeres secretos e pirosos da minha infância.

Mas, agora, bem, agora eu não posso mais. Começou com uma mudança subtil, na verdade. Mudei de emprego e esse emprego era mais blazer escuro, era mais blusa de seda, padrão floral, sapato bicudo, cabelo vivendo em cativeiro, era mais roupa terrestre, e não explosão sideral. Mas, o casaco de cabedal preto ficou pendurado no armário, porque sempre achei que haveria loucura suficiente para voltar a usá-lo. Só que chegou o dia em que eu já não era XS. É, saltei direta para o tamanho M, ou até para o L. De repente, eu era do tamanho de todas as outras mulheres adultas. Não perguntem como isso aconteceu, continuo a comer as mesmas coisas, continuo fazendo tudo igual, mas na balança o número mudou, ganhei massa, volume, eu sei lá, ganhei oito quilos que eu achava que ia um dia perder, até perceber que não, que esses oito quilos são meus agora, meus como uma perna ou um dedo, como um cotovelo ou pestana. O casaco não serve mais. Mas, continua pendurado no armário, não consigo deitá-lo fora. Vocês percebem porquê, certo? Deitá-lo fora é deitar fora as guitarras e as baterias, os corações descompassados, as noites compridas, as explosões de estrela. Tenho tanto medo de nunca mais poder usar esse casaco. ‘Nunca mais usá-lo’ é o oposto de o deixar descansar umas estações e depois voltar a ele, com a leveza de quem reata uma amizade esquecida. ‘Nunca mais usá-lo’ é tão definitivo e as coisas estão a tornar-se muito definitivas na minha vida. O que não é necessariamente mau é, sobretudo, um pouco confuso. Por isso, vou deixar o casaco pendurado, vou continuar fingindo que isto é só uma fase. Meu deus, como estou ficando lamechas.

(Imagens: This is us. Mulheres portuguesas nos anos 50, fotografadas por Artur Pastor)

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