Esqueci a minha vida incrível

Hoje, na hora da sesta, eu fiquei desocupada no sofá novo do IKEA de tecido cinzento, comendo rolinhos chineses muito gordurosos, muito apetitosos que alguém deixou no congelador. Estava a ver os livros na estante e veio-me uma tristeza tão grande. Todos aqueles livros são meus. Gastei dinheiro com todos, porque ninguém nunca me oferece livros – porque será isso? Eu li esses livros todos. Levei-os comigo no metro, no avião, dobrei-lhes os cantos, deixei as capas desmazeladas. É, fiz tudo isso, mas olhando as lombadas na estante, percebi que não me lembro da maior parte deles. Como Amsterdam de Ian McEwan. Fala de quê? Não me lembro sequer do tópico. Ou Under the Net de Iris Murdoch. Li há uns três anos, mas não seria capaz de vos dizer se a ação decorre na França feudal ou numa nave espacial. Amanhã mesmo eu poderia encontrar The Rainbow de D.H. Lawrence na livraria e dizer com a felicidade do explorador que descobre a gruta perdida: Que achado. Nunca li este. Mas seria mentira. Porque The Rainbow está na minha estante também. Eu já li esse livro, mas é como se nunca o tivesse aberto. Não vou dizer que todo esse esquecimento não tem vantagens. Claro que é maravilhoso reler vezes sem conta a minha biblioteca e nunca me cansar. Para além de estar num permanente estado de agradável surpresa, é igualmente muito económico. Mas, o pior é que não são só os livros que eu esqueço. Acontece-me o mesmo com filmes. Durante a universidade, enchi os olhos de fitas iranianas e vietnamitas. Hoje não me lembro de nada. E apaguei também viagens da memória. Visitei tanta igreja, subi tanta torre, acordei cedo para escalar montanhas e lembro-me de tão pouco. Sei que já estive no Luxemburgo, por exemplo, mas não me recordo. Passei uma semana em Toronto, mas só me lembro de almoçar num Mövenpick num centro comercial. Vivi em Boston mais de um ano e qualquer turista acidental sabe mais coisas sobre a cidade do que eu, que fico abanando a cabeça fingindo lembrar-me de Newbury Street. E tenho também tantas dúvidas. Por exemplo, não me lembro se fui às cataratas do Niagara. Não é triste isso? Sei que estive nas cataratas do Iguaçú, isso recordo bem, mas é impossível lembrar-se se fui às do Niagara. É, minha vida maravilhosa foi um desperdício vivida por alguém tão aéreo como eu. Passei anos a entrevistar bandas e não me lembro do que disseram, aprendi línguas que não reconheço, esqueci melhores amigos e namorados, a minha mãe diz-me que estive anémica, mas sei lá. Por isso, se às vezes eu vos parecer hesitante no meio de uma conversa, não é que esteja mentindo. Nada disso. Estou apenas resgatando os pequenos cristais desta amnésia nebulosa.

(Imagem: Daqui)

AlexeyKondakov_17_04.jpg

Anúncios

One comment

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s