Novo-riquismo dos sentimentos

Eu consigo imaginar que, ao longo dos séculos, os homens soltos que chegavam à América – sem mulher, sem filhos, sem família, só de pistola e olhos arregalados – finalmente sucumbiam à solidão e quebravam com a necessidade de amor e então entravam nas novas igrejas onde alguém lhes garantia que não estavam sós e que Jesus – ao menos Jesus – os amava. É, Jesus não amava apenas os Homens em geral, não amava apenas os Bons e os Justos, Jesus amava-os também a eles, especialmente a eles. Amava-os mesmo cobertos de falhas, de pó e de pecados. Foi o início dessa relação ‘pessoal’ com Jesus (entram os Depeche Mode), dessas conversas sem intermediário, dessa garantia dos autocolantes na parte de trás das carrinhas apregoando ‘Jesus ama-te’.

Deste lado do Atlântico, ainda tudo era diferente e ninguém andava esfomeado de amor. Então, a relação com Jesus continuava como sempre fora: respeitosa, impessoal, formal. Jesus ainda era Deus, não era um amigo com quem se conversava. Jesus venerava-se, admirava-se, idolatrava-se e Jesus não se preocupava com os assuntos corriqueiros das nossas vidas quotidianas. Deste lado do Atlântico, nunca um jogador de futebol ousara insinuar que aquele golo fora obra divina, nunca o concorrente do Ídolos sequer sonhara associar a passagem às ‘galas ao vivo’ a uma intervenção do próprio Filho de Deus. Nada disso. Deste lado do Atlântico tudo continuava sóbrio e distante como sempre.

Mas, na América, as barreiras continuavam a ser quebradas. Os homens ainda vagueavam perdidos na terra imensa, mas agora, tão ancorados nesse amor pessoal com Jesus sentiam-se poderosos para dominar todos os tipos de amor. Mesmo aquele que era transitório e terreno. Eles queriam estar tão próximos das suas mulheres, dos seus filhos e até dos seus amigos como estavam de Jesus. E então, começaram a extravasar o sentimento em palavras sinceras. ‘Eu amo-te’, diziam desligando o telefone. ‘Eu amo-te’, diziam em público, sem vergonha. Ao ponto de se tornar preocupante não gritar publicamente a nossa intimidade, ao ponto dos jovens adultos começarem a encher os consultórios e os bolsos dos psicólogos chorando: ‘A minha mãe nunca disse que me amava’. Que tragédia.

Vieram também os filmes, as músicas e as séries onde essas frases se amor se repetiam ainda mais amplificadas, ali expostas na banalidade de uma qualquer quinta-feira. Essas declarações, de início tão segredadas e tão bonitas, tornaram-se convencionais e desprovidas de significado. O mundo inteiro já ia aderindo a essa ostentação de intimidade, a esse novo-riquismo dos sentimentos. E, com as redes sociais, cada um ganhou seu altifalante e achou totalmente necessário apregoar os seus sentimentos aos quatro ventos, afinal não o fazer era estranho. Ninguém queria ficar para trás. Ah, quando o amor era privado, apenas podíamos imaginar a sua piroseira, mas agora que se soltou em declarações de amor tão públicas e exageradas, não dá mais para disfarçar. Amor, não é amor se não estiver em forma de hashtag. Eu própria não sei mais se amo os meus filhos. Afinal, nunca usei a hashtag: #10anosdeamor #meuprincipe #cheiadesaudadesdomeubebé. E nunca deixei uma hashtag para o pai dos meus filhos #cheiadesaudadestuas #mrandmrslove #nabolhadoamor #amorperfeito. Nunca lhe escrevi ‘obrigada por tudo o que és na minha vida’ ou ‘amo-te perdidamente’ com três corações em frente. Nunca laudei os meus pais com fotos a preto e branco no dia dos seus aniversários. Sim, e agora vou ter um filho, mas quem me ajuda? Estou bloqueada e não consigo usar essas hashtags despudoradas: #mybabyboy #greateastloveofmylife #omeubebéélindo. Que tragédia. Jesus me acuda.

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