Dias de glória

De vez em quando, uma das minhas amigas chiques puxa do cigarro, inspeciona a unha pintada na pontinha do pé que sobra da sandália e diz suspirando: Que aborrecimento, chegou a época dos casamentos. Ah, que inveja. A ‘época dos casamentos’ é coisa que eu nunca vivi. Na minha família, tudo é meio revolucionário e não aderiu a costumes burgueses como casamentos, batizados e comunhões. Só tem funeral mesmo. E, os meus amigos são mais do mesmo, para além de nunca terem dinheiro – e como é caro uma pessoa casar-se, só mesmo a inocência dos vinte anos para nos convencer a embarcar num investimento tão disparatado. Meus amigos vivem juntos, têm bebés juntos, depois separam-se, depois vivem de novo juntos e nisto estão batendo na meia idade, para quê casar com tanta renda, tanta conta para pagar, tanta prestação. Eu nunca tive época de casamentos na minha vida e é uma pena porque, ao contrário de tantos outros, eu adoro casamentos. Não o meu, claro, eu nunca irei casar porque me rejo sempre pela razão e nunca pelo coração. Mas, adoro os casamentos das outras pessoas. Adoro noivas de cabelo repuxado e aquele bronzeado alaranjado de solário, adoro como estão elegantes depois de seis meses bebendo apenas chá para caber no cetim branco, adoro os bouquets bizarros, adoro véus. Apesar de liberal, quando se trata de noivas eu sempre me deslumbro com o estilo bem tradicional. E, adoro também os noivos, sempre têm cara de parvos e sempre estão reluzentes durante a cerimónia como se tivessem sido polidos durante a noite. Adoro as tias alinhadas como uma caixa de lápis de cor: uma de encarnado, outra de azul, outra de amarelo e sempre tem aquela vestida de verde-alface, com o chapéu florido com renda tombando para a cara. Adoro todos suando em pleno agosto, adoro todos querendo fazer bonito, adoro todos desejosos de agradar. Adoro maquilhagem esborratada e os souvenirs que os noivos escolhem para os convidados, são inacreditáveis. Uma vez recebi uma arca de madeira pintada à mão cheia de areia dentro. Isso sim, é um verdadeiro recuerdo, nunca mais esquecerei. Adoro vídeos de casamento intitulados ‘A nossa história’ com banda sonora da Shania Twain. Gosto quando a comida é boa, mas ainda gosto mais quando é má, porque dá um pretexto para quebrar o gelo com aquela gente estranha que calhou na nossa mesa, as pessoas sempre se unem para falar delicadamente mal, mas sem nunca atacar diretamente os noivos, coitados, que culpa têm eles desses croquetes ressequidos, das batatas frias e da sobremesa que não chega nunca, estamos à espera faz três quartos de hora. Adoro o DJ louco, tocando todos os êxitos das nossas vidas, adoro gente com os copos, colarinhos desalinhados, as sobremesas morrendo na mesa e finalmente, lá ao fundo, o sol a nascer. Adoro que o amor esteja no ar, mas não aquele que estamos ali a celebrar, é o amor que une todos os convidados que se abraçam pela cintura e, no calor do álcool e da emoção, juram eterno amor. Que dias gloriosos. E ainda tem gente que não gosta da época dos casamentos. Como é que é possível?

(Imagem: Casando com os Kennedy em 1953)

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