Estagiários fresquinhos

Todos os anos chega uma remessa nova de estagiários fresquinhos ao meu trabalho. Todos os anos esses estagiários tem apenas vinte e um anos e ar de coelho despenteado, com as orelhas subidas e o coração batendo forte. Todos os anos eu sou um ano mais velha, chegando até agora ao ponto em que posso dizer com convicção que não sou mais como uma irmã mais velha. Eu podia ser mãe deles. Uma mãe jovem, mas de todas as formas uma mãe. Os meus estagiários são tão responsáveis, pontuais e educados quanto se poderia desejar. Os meus estagiários sonham com contratos de trabalho, sonham pagar a renda da casa, sonham em vestir-se com a roupa aborrecida que eu uso, sonham ser adultos. Eu sempre os encorajo para a loucura. Sempre digo para não ficarem aqui, sempre os mando estudar fora, trabalhar fora, ver o outro hemisfério, navegar no Mar da China, ver o mundo de comboio, ver o mundo se for preciso vendendo donuts ou escalando montanhas. Sempre que me pedem conselho, eu digo com paixão para não assentarem, para não comprarem casa agora, para não querem estabilidade agora. Verdade, eles ainda falam muito de estabilidade e nesses momentos é como se eles fossem do tempo dos meus avós e eu fosse de repente a sua neta progressiva. A estabilidade ainda existe? Achei que esse conceito tinha morrido. Acho que a estabilidade não existe mas não. E não existe porque, na verdade, ninguém a deseja. Porque se dissessem agora que iriamos ficar neste mesmo lugar durante os próximos trinta anos, nós não iriamos querer. Eu sempre digo aos meus estagiários que não há pressa. Eu digo: aconteça o que acontecer daqui a dez anos vocês vão olhar as paredes desse escritório e vão querer sair correndo pela janela, quase cometendo suicídio, vocês vão querer tomar banho na cascata fria, vão querer ver o nascer do sol, vão ter saudades do campo onde nunca viveram. Saiam agora, saiam já. Eu proíbo-vos de assinarem esse contrato. Eu proíbo-vos de terem medo. Vocês têm o resto da vida para ser como eu. E eu tenho o resto da vida para sentir saudades de ser como vocês.

(Imagens: Este verão mostrei o nascer do sol aos meus filhos. Eram sete da manhã e eles estavam cheios de sono)

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