Não fumar, por favor

A minha mãe fumou quando estava grávida de mim. Fumou grávida do meu irmão. A minha mãe fumava na penumbra do sofá vendo filmes franceses. Fumava sábado à tarde na mesa da sala inventando livros escolares. Fumava nos jantares. Fumava com café, fumava no carro, fumava deitando fumo pelo nariz. O meu pai tinha fumado em tempos também, mas não me lembro. Na minha família, fumar era apanágio das mulheres que deixavam beatas com marcas de batom nos cinzeiros, faziam deslizar os cigarros finos nos dedos, criavam um nevoeiro espesso de borboletas doidas dançando à sua volta.

Eu sonhava ser crescida um dia também, eu sonhava fumar, sonhava engolir fumo, fazer bolas de fumo, viver com um halo permanente em redor do meu rosto, esse halo era uma nuvem de fumo de cigarro. Sonhava muito com aquele gesto bonito que é acender um cigarro e durante anos vivi preocupada, porque tinha medo de acender fósforos e isqueiros. Treinei muito até ser capaz. Eu tinha uns doze anos quando os meus pais me deixaram dar uma passa num cigarro, foi num parque de campismo em França no fim da noite. Uma brincadeira tão inocente, como era inocente nesses anos deixar uma criança molhar os lábios no vinho ou no café para depois todos se rirem com as caretas engraçadas. Mas, como mãe, eu nunca seria capaz de deixar os meus filhos provarem nenhuma dessas substâncias. Não o proíbo por questões de saúde, nada disso, é porque tenho medo que um dia eles se sentem num daqueles divãs dos programas da tarde e atribuam o fracasso da sua vida a um passo em falso dado por mim. Ser pai ou mãe nos dias que correm é uma atividade muito regida pelo medo. A gente tem medo do que os outros possam dizer, a gente tem medo do que os outros possam pensar, a gente tem medo de fazer coisas erradas.

Quando cresci, os meus sonhos de fumo tornaram-se realidade. Mas, não foi fácil não. O meu corpo é tremendamente anti-tabágico. Tentei na adolescência e depois na idade adulta, mas nunca me viciei. Com muito esforço, tornei-me uma fumadora mediana e concentrei-me muito em aprimorar os gestos: acender, inalar, expirar, esborrachar o filtro no cinzeiro com ar indiferente. Ah, eu era uma fumadora cheia de estilo. Parei faz muitos anos e parece que quase toda a gente deixou de fumar no entretanto. Agora todos são vegetarianos, todos correm a maratona. Só gente de meia-idade faz essas coisas, não é? O tempo encurta e eles querem acreditar que vão ser eternos. Agora, é proibido fumar no escritório, no restaurante, na escola, no carro, na casa dos amigos. Fumar é imoral. É politicamente incorreto. Eu acho até que devia ser proibido fumar na esplanada. Hoje subindo o elevador do trabalho ia tonta com o cheiro do colega que tinha estado a fumar à porta do edifício logo às nove da manhã. A minha mãe cheirava assim? Eu cheirava assim? Que náusea. Quando as portas do elevador abriram no segundo andar saí correndo.

(Imagem: Sexy smoking com Humphrey Bogart & Lauren Bacall, algures no final dos anos quarenta)

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