Quando nos tornamos adultos?

A gente cresce ouvindo aquelas frases ocas das amigas da mãe repetindo: tão crescida, já está uma mulherzinha. Uma mulherzinha. Mas, lá no fundo sabemos que somos só umas miúdas, nada em nós reflete ainda a mulher decidida que sabemos que um dia vamos ser. Fazemos dezoito anos e continuamos sendo umas meninas, entramos na faculdade e continuamos incertas e livres, acaba a licenciatura e somos ainda tão jovens. Depois faz mestrado, arranja emprego por seiscentos euros, compra casa, arranja emprego de mil euros e continuamos sempre, sempre crianças. Foi assim comigo. Eu esperava, esperava a idade adulta, mas ela não vinha. Eu tive filhos, pagava imposto, mas continuava sendo infantil, inacabada, eu continuava corando, dizendo baboseiras, pedindo boleias, pedindo conselhos, pedindo desculpas.

Esta semana, eu dei por mim sendo adulta pela primeira vez. Foi talvez porque muita coisa está a acontecer à minha volta e eu me sinto finalmente no coração do vulcão. Esta semana, tenho obras em casa e os senhores perguntaram-me com ar sério se eu queria duas ou três tomadas naquela parede e depois aguardaram respeitosos a minha decisão. Quero apenas duas, mas coloque por favor outra tomada junto da porta de entrada. E eles acenaram com a cabeça, prontos a executar as minhas ordens. Esta semana também, eu bati com o carro no parque de estacionamento do Colombo e, enquanto os carros apitavam descontrolados atrás de mim, eu sorria e acalmava a senhora em quem tinha batido. Levei-a para um lugar sossegado, dando ordens aos homens da segurança que nos olhavam aflitos (vamos estacionar ali no canto, deixe os outros carros passar) e preenchi uma declaração amigável, apesar do carro dela e do meu não terem ficado danificados no incidente. Não se preocupe, tudo vai correr bem e a mulher, agradecida, até  me abraçou quando se despediu. Esta semana ainda, eu fui à consulta de obstetrícia do meu terceiro filho e achei que finalmente ia receber alguma atenção extra do meu médico, que ele me iria mimar e ficar até um pouco inquieto com algum valor de análises anormal, afinal eu sou uma grávida com mais de quarenta anos, isso deveria significar alguma preocupação, mas ele só murmurava sorrindo: as suas consultas são tão rápidas, porque está sempre tudo ótimo. E depois suspirando: As outras grávidas têm sempre algum problema. Esta semana, eu encomendei os livros escolares dos meus filhos, eu pensei na mobília nova da sala, eu marquei consultas de dermatologia para toda a família, eu respondi a e-mails de trabalho, mesmo estando de férias. É acho que estou finalmente ficando uma mulherzinha.

(GIF’s: Love, love, love Kitchen Ghosts)

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