Comprei um carro

Eu tirei a carta de condução na semana em que fiz vinte anos. Isso foi nos anos noventa, só para vocês se contextualizarem. O meu instrutor usava botas de cowboy e dizia que eu tinha que melhorar as minhas ‘ruduções’ (Joana, tens que ser mais rápida a ‘ruduzir’). Por isso, recomendou umas aulas extra, que eu prontamente paguei, para passar no exame de condução. Eu era tão competitiva que a simples possibilidade de chumbar fosse no que fosse era o meu pior pesadelo. Paguei também para fazer o exame no privado, porque bem lá no fundo sabia que só no privado passariam uma abécula como eu. No dia marcado, apareci em Chelas, sem ter dormido nada, tremendo de frio, de medo, eu sei lá. A examinadora estava grávida de vinte meses, mas o instrutor das ‘ruduções’ já me tinha prevenido que eu a poderia encontrar. Então, fiz tudo como ele tinha aconselhado. Andei sempre em primeira no parque de estacionamento e ‘adivinhei’ que a rua estreita por onde tínhamos que sair tinha dois sentidos. Brilhante. Nesses dois primeiros minutos de exame, fui realmente uma boa aluna, fiz tudo para agradar. Daí em diante foi o descalabro. A examinadora pediu para estacionar cinco vezes, eu não estacionei nenhuma. É, foi tão mau que até o rapaz sentado no banco de trás esperando a sua vez para o exame suava e gesticulava desesperado. Finalmente, a examinadora pediu para contornar o passeio. Eu desisti a meio, parei no meio da estrada e dei licença de ultrapassagem à trotinete da fruta pela direita. Acho que a examinadora gritou. Sim, tenho quase a certeza que aquela senhora gigante se enfureceu e falou bem alto. Fui para o banco de trás. Tenho que agradecer ao Ayrton Senna que fez o exame logo a seguir ao meu, porque deixou a instrutora tão feliz – Muito bem, Tiago, impecável – que, num ato de benevolência, me passou a mim também. Como é que é? Vocês não estão a acreditar? Imaginem eu. Fui para casa dormir dois dias seguidos e nunca mais peguei num carro. Até descobrir agora, vinte anos depois, que estou grávida do terceiro filho. Nem sei como fiz com os dois primeiros, só sei que não vai dar para andar de táxi, de metro, de autocarro e a pé com os três. E, sei que não vai dar para cravar boleias aos amigos para quatro passageiros. Então, teve mesmo que ser, este verão comprei um carro. Pequenino, automático (sem ruduções!), com sensores de estacionamento e todas os rodriguinhos que o orçamento permitiu. Estou aterrorizada. Mas, comecei aos poucos a conduzir. Ando a vinte à hora, não apitem por favor. E, acreditem, se eu for capaz, qualquer um consegue. Mesmo.

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5 comments

  1. Eu chamo-me Joana Cabral, tirei a carta aos 20 anos porque a minha colega de exame tinha sido atropelada por um instrutor e se ela passava até um cego passava, e nunca mais conduzi. Tenho 40 anos, 2 filhos, mas não estou grávida. Fora este último detalhe, nunca me identifiquei tanto com um post 🙂 Diz lá que carro é esse sff., que se calhar ainda há esperança 🙂

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  2. A sério? Isto é maravilhoso! Cara Joana Cabral (nunca tinha conhecido outra), comprei um VW Up. É mínimo e automático. E sim, há sempre esperança 🙂

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  3. Eu tirei a carta aos 18 anos e ainda me aventurei a conduzir depois, mas desisti rapidamente. Tenho 43 anos e três filhos e continuo sem conduzir.
    Há dois anos sentei-me ao volante de um carro automático e deixei-me deslizar por uma estrada sem trânsito. Até hoje os meus filhos falam disso.

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