Quatro semanas no Oeste

Há um mês, as minhas três amigas estavam fartas de Lisboa. Tão fartas. Estavam fartas da segunda circular. Fartas do trabalho e dos relatórios para o chefe americano, fartas dos jantares de sexta à noite, fartas de estarem solteiras e fartas dos namorados. Fartas se vestirem de cinzento no metro, fartas dos saldos, fartas de preencherem impressos, fartas de tomarem remédios, de pintarem o cabelo, de usarem batom e acordarem sempre dez minutos atrasadas.

Então, juntas apanharam um avião azul e aterraram de férias na Califórnia. Eu não sei bem onde termina e começa o Oeste, porque até a Califórnia é no Leste, se a compararmos com o Japão. Vocês também pensam nessas coisas? Acho que não. Mas isto não interessa nada. Interessa aqui que as minhas amigas viveram quatro semanas junto ao Pacífico. Durante essas quatro semanas aconteceu vestirem sempre camisolas às riscas como se tivessem combinado, aconteceu jantarem em diners como nos filmes, aconteceu guiarem horas na Pacific Coast Highway sempre achando que se parecia com a Costa Vicentina e aconteceu misturarem constantemente o português com o inglês anunciando, por exemplo, que faltavam quarenta e sete miles para chegar ao destino ou que ali à frente era preciso fazer um u-turn.

Essa foi a viagem de uma vida, embora eu só possa acreditar no que me dizem. Afinal, eu nunca fui à Califórnia. As minhas amigas visitaram sítios como nomes fabulosos como o Death Valey e Carmel by the Sea, fotografaram parques de diversões abandonados e praias com areais cobertos de leões-marinhos, viram uma estrela de cinema saindo de um carro vermelho, atravessaram nas passadeiras arco-íris de São Francisco, treparam às montanhas amarelas e tocaram a neve nos pontos glaciares.

Quando aterraram em Lisboa vindas do Oeste eram pessoas totalmente novas, totalmente diferentes. Foi assim durante uns dois dias até terem aparecido no trabalho na segunda-feira de manhã, ainda de camisola às riscas e pele bronzeada, de cara limpa, esbanjando saúde, mostrando a todos como as férias faziam bem. Mas, logo depois do almoço apanharam o seu reflexo infeliz no espelho do elevador – deslavadas, esverdeadas e cansadas como mulheres que caminharam de manhãzinha desde o jurássico. E foi um instante nervoso até abrirem a bolsa e tirarem lápis, blush e batom para voltar a pôr a cara de sempre.

Crónica publicada hoje no Lifecooler 🙂

(Foto: Marilyn Monroe – quando ainda era Norma Jean – no Death Valley, Califórnia, em 1945. Bónus: Marilyn também usava camisolas às riscas.)

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