Rua de São Dinis

Entre mil novecentos e setenta e seis e mil novecentos e noventa e seis, eu e a minha avó vivemos uma incrível história de amor na rua de São Dinis no Porto. Ao contrário das desgraças, cujos pormenores todos conhecem, ninguém conhece realmente os pormenores da felicidade, porque as pessoas felizes são simplesmente felizes. (Viram o que eu fiz aqui? Eu tentei piscar o olho a Tolstoi, naquele começo de Anna Karenina. Minha avó admirava muito os escritores russos). Ninguém na rua de São Dinis sabia desse amor, nem mesmo o meu tio que vivia no quarto dos fundos e aparecia para jantar todas as noites, muito silencioso, como se guardasse em si todos os fantasmas, e que depois desaparecia, eu nunca soube onde pairava o resto do tempo, só que havia música clássica tocando em segundo plano. Essa felicidade tinha algo a ver com o facto de a minha avó ter sempre açúcar para me dar, sem racionamento, e com o facto de juntas partilharmos três bonecas de plástico, uma ruiva e duas loiras, com sessenta centímetros cada e cujo guarda-roupa era executado pela minha avó na máquina de costura que sobrara de outra senhora antiga e que por isso era considerada uma relíquia. Tinha a ver com o facto da minha avó nunca me ter dito que eu era bonita e também nunca me ter dito que eu era feia, eu era sempre eu, sem flutuações. Mas, talvez o meu avô soubesse dessa felicidade sim. Ele também vivia mastigando na sala de jantar, viva sendo diabético e comendo muitos legumes, vivia com um lenço de pano no bolso e vivia falando da Índia num emaranhado de frases que se confundiam como cobras. Meu avô combateu na Índia nos anos sessenta, mas ninguém se lembra mais dessa guerra, pois não? Foi por isso uma surpresa para mim que, na noite em que esse avô discreto morreu, um enorme continente verde se desprendesse da terra abundante que era a minha avó e ela ficasse de repente uma ilha pequenina, uma ilha minúscula junto dos glaciares árticos. Vocês entendem, é que eu achava que só eu era suficiente para a minha avó. Que bastava eu. Mas, não houve forma de voltar a ver árvores nascendo nessa terra. Foi ainda uma surpresa maior quando meu tio do quarto dos fundos pegou um bote e abandonou essa ilha, que agora era tão árida como o caroço de Porto Santo, tão árida como a ilha do Sal em Cabo Verde, toda feita de lava. Ele pegou no bote e foi em busca de Terra Nova e minha avó ficou ainda mais isolada. Por mais que eu regasse a ilha pequenina que agora era a minha avó, ela não parou mais de secar. E, nem a nossa incrível história de amor foi capaz de a salvar.

(Imagem: Mais aqui)

JenStark_09.jpg

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s