Estrangeiras

Hoje, no exato minuto em que a seleção nacional de basquete do Vietname viajava para Sidney na Austrália para um campeonato amigável entre nações, eu apanhei o comboio na ponta norte da cidade de Lisboa e fui, em apenas vinte minutos, até ao extremo sul da cidade. Na zona sul, há enormes contentores que viajam em cargueiros e há também palmeiras e lá o rio é tão suave que parece um lago gigante. Esse rio é tão manso que há meninos praticando canoagem em pequenas enseadas artificiais, meninos com coletes salva-vidas e boias e instrutores e pais na margem gritando: Boa, filho. Boa, filho. No meu comboio ia uma rapariga vestida como qualquer outra mulher portuguesa, usava calças de ganga justas e botas pretas de salto alto, usava tudo em tons escuros e baços e trazia dois ou três sacos de plástico no braço. Estava de costas para mim, mas essa rapariga era tão alta e tinha ombros tão largos que todos os homens da carruagem pareciam animais subnutridos. Essa mulher era russa, logo deduzi. Claro que podia ser da Ucrânia ou da Moldávia ou até de outra republica exótica, desconheço o nome de todas. Mas, apesar dos cabelos pretos espigados, apesar do ar apático, essa mulher tinha pernas tão extensas e uma cintura tão alta que só podia ser russa, não fabricamos esses modelos extra-large por estes lados. Uns minutos depois cheguei ao emprego e encontrei junto da máquina de café outra mulher estranha. Essa era estranha porque usava sandálias em março. Sandálias abertas, sem meias e vestia também calças corsário mostrando as pernas sardentas. As regras são claras em Lisboa. Até estarem vinte e sete graus, até as bancas de gelados brotarem no chão da cidade, as mulheres portuguesas usam botas de inverno e pernas cobertas, não caímos em excessos primaveris. Da mesma forma que não desfilamos em biquíni no jardim da Gulbenkian quando faz sol, isso é coisa de nórdica. Podemos até ter bom tempo por estes lados, mas fazemos questão de o desfrutar muito discretamente. Então, essa mulher usando sandálias nessa altura do ano tinha também que ser estrangeira. E, quando abriu a boca e deu uma gargalhada que fez estremecer os peixes que boiavam no rio, deu para perceber que era americana. Levei o meu café e fui sentar-me na secretária. A seleção do Vietname estava chegando ao hotel nesse mesmo instante.

(Imagem: Uau, Daniel Beltrá. Mais aqui)

Daniel_Beltra_05.jpg

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