Amazona

Essa amiga eu conheci na escola primária, porque usava cabelos compridos e montava a cavalo. Aparecia na escola de calças justas e botas de montar e as meninas paravam de comer o pão com nutella, paravam de abanar os dentes, paravam de ter nódoas negras nos joelhos e ficavam a admirar em silêncio, com o descaramento das meninas que sorvem tudo. Essa amiga roubou-me o namorado no liceu. Foi uma história muito triste essa. Lembro-me até hoje, porque eu estava muito apaixonada por ele e pelo anoraque vermelho dele e pelo cabelo meio comprido dele e sobretudo pelas piadas que ele fazia, eu sempre era o centro das suas piadas idiotas debaixo do carvalho. Mas, um dia a minha amiga amazona sentou-se junto de nós e ficou a desenhar cavalos num caderninho e o rapaz do anoraque lançou-lhe um comentário irónico. O chão ruiu, sério, o chão ruiu debaixo dos meus pés e fui engolida por um buraco escuro, escuro e fui viajando de cabelos em pé a toda a velocidade, paixão quer dizer sofrimento, sempre explicava a professora de latim. E eu estava muito apaixonada só que, a partir desse dia, foi ela e só ela o alvo das piadas desse rapaz e, o pior, é que ela nem ligava. Ela só queria saber de cavalos, não ligava a rapazes bonitos. Logo, ele também estava sofrendo, foi uma tragédia esse triângulo amoroso. Essa amiga jantou comigo na noite em que eu fiz vinte anos, porque estudávamos juntas na universidade. Entretanto, ela tinha um namorado novo, um rapaz canadiano que a levou para conhecer o mundo, juntos foram a Machu Picchu e andaram de veleiro na Turquia e quase foram presos em África, não sei bem porquê, era algo relacionado com um passaporte, o caderninho mágico que desbloqueia fronteiras. Anos mais tarde, essa amiga trabalhou na mesma empresa que eu, quando eu já era chefe e ela apenas estagiária, porque depois de tantos anos de viagem ela estava ainda ganhando currículo. Depois arranjou emprego a sério, uma emprego tão melhor que o meu, e mudou de empresa. Essa amiga encontrei-a ontem junto à escola dos meus filhos, ela também tem um filho que também está aprendendo a montar a cavalo, e pela primeira vez gostei de falar com ela, acho que lhe perdoei tudo, as botas de montar, o rapaz do anoraque, as viagens pelo mundo. Afinal, temos tanto em comum. Afinal, nossas vidas são duas raízes de árvore crescendo juntas, uma por cima da outra, vivemos tropeçando nos nossos cabelos por essa cidade. Ontem ela dizia que é o destino, talvez seja o destino, isso certamente é o destino.

(Imagem: Isabel de França a cavalo por Diego Velázquez, 1635. Mais aqui)

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