Sopa sexy

Essa sopa é sexy? perguntou o rapaz de barba no snack-bar. Como era esperto esse rapaz, logo prendeu a atenção da rapariga, porque a sopa não pode ser sexy, sexy era a chuva caindo lá fora e ensopando as roupas e os cabelos das pessoas que passavam. Sexy era o vento levantando as saias, batendo nos vestidos e abrindo os casacos. Mas, isso também não é sexy não, isso é o sexy que vem nas revistas, o sexy que vendem por aí nos anúncios, o sexy criado em laboratório que nos imprimiram no cérebro. Definitivamente, roupa molhada e vento nos cabelos era o cliché do sexy. Nesse sentido, a sopa era muito mais sexy, porque era original e tinha feito sorrir a rapariga. E ela ainda estava a sorrir, procurando uma resposta que também fizesse sorrir o rapaz, quando outro rapaz entrou no snack bar onde todos almoçavam com uma meia preta na cabeça e, apontando um revólver molhado ao senhor da caixa, exigiu que lhe desse todo o dinheiro. Nesse instante tudo parou, a senhora com uma criança de colo gritou agudo e quem pode saiu pela porta aberta. Os restantes formaram ângulos estranhos com o corpo, colaram-se às paredes, fazendo-se pequenos como duendes e o homem da caixa levantou os braços como tinha aprendido com Paul Newman e disse: calma, amigo, calma. Mas, o amigo não estava calmo, o revólver tremia na mão dele, rápido, implorou. O rapaz da sopa sexy segurou a mão da rapariga que transpirava de olhos muito abertos e, nos olhos dela, viu o homem do snack bar abrindo a caixa registradora e tirando notas e moedas. Só notas, pediu o assaltante como se fosse um cliente regular escolhendo um pastel de nata ou adoçante em vez de açúcar no café, depois agarrou no molho de notas e saíu rapidamente para um carro que o esperava lá fora. Os ladrões do snack-bar partiram para chegar a um lugar que não era a sua casa e, antes de dobrarem a esquina, dispararam um tiro para o infinito. O tiro atingiu a nuvem-mãe e a chuva caíu com mais força. No instante em que eles desapareceram, todos voltaram a tagarelar no snack bar, só a mãe da criança pequena se desfez num choro profundo. O susto dava-lhes uma imensa emoção e essa emoção tornava tudo mais sexy, pensou a rapariga olhando a sopa fria que morria na mesa.

(Imagem: Soldado norte-americano durante a guerra do Vietname, a 18 de junho de 1965. War is hell).

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