Restaurante chinês

O meu amor entrou no restaurante chinês às duas e sete, no momento em que eu pedia mais uma dose de ha-kau, sempre gosto de comida a vapor, era capaz de comer eternamente comida a vapor, a comida que vem em cestinhos de bambú. O restaurante é aquele perto do jardim das Amoreiras e as Amoreiras são aquele lugar onde os homens nunca jogaram golfe e onde nos anos oitenta viviam as personagens ricas das novelas. As personagens ricas das novelas sempre bebiam sumo de laranja ao pequeno-almoço e sempre tinham criadas vestidas à francesa. O meu amor morava na Austrália, usava rugas na cara porque vivia ao sol, usava best friends, usava uma casa com terraço com vista para a baía onde passeavam aranhas-caçadoras gigantes, dizem que é a espécie de aranha com maior envergadura de patas. No momento em que o meu amor entrou no restaurante chinês, alguém deixou cair porcelana na cozinha e o barulho sobressaltou todas as gazelas, incluindo eu, que deixei o pescoço vulnerável e descoberto. Mas o meu amor não me viu, porque trazia os braços cheios de bebés, uma menina rosada e um menino com cara de inseto e logo atrás vinha a mulher dele, que cabelo espetacular, feia sim, mas que cabelo espetacular. Noutros tempos, nós não seríamos parte da paisagem, como somos agora. Nós não seríamos um pormenor como aquela árvore ou aquela igreja. Noutros tempos, esta cidade seria toda nossa. A esta hora nós leríamos o jornal na cama, George W. Bush reeleito em vendaval republicano, depois nós iríamos em busca de uma sala de cinema, nós iríamos rir muito alto, ouvir música muito alto, nós iríamos apanhar o metro, nós iríamos apanhar o avião para Sidney, não tínhamos medo de aranhas, nós iríamos disparar as setas de fogo, porque éramos devotos da deusa do amanhecer e sempre nos achávamos às cinco da manhã na padaria da Lapa. O ha-kau chegou, mas os meus pulmões estavam carregados de cinza, tudo isso ardeu. O ha-kau chegou e eu já tinha trocado de lugar, de costas para a porta, de costas para o meu amor, para os seus insetos rosados e para a mulher de cabelo espetacular.

(Imagem: William-Adolphe Bouguereau.1825-1905,  Leveil du coeur)

William-Adolphe_Bouguereau_(1825-1905)_-_Leveil_du_coeur_(1892).jpg

Anúncios

2 comments

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s