Um ciclo perturbador

Para os meus amigos a televisão não existe mais. Agora tudo são séries que se vêem no tablet ou no telefone enquanto viajam no comboio, enquanto esperam o dentista ou enquanto fazem as unhas. O futuro chegou e é mas egocêntrico e luminoso do que Blade Runner previa. Eu ainda vejo televisão, ligo o botão e vejo o que alguém decidiu que eu devo ver nesse domingo à noite. Suponho que não ter escolha pode ser libertador. Como abrir um presente, sempre uma surpresa brilhante. Então ontem, depois do dia glorioso que trouxe a primavera ao hemisfério norte – apesar de ainda não haver folhas de amoreira nas árvores – sentei-me para uma hora de alforreca impávida em frente à televisão. Queria ser entretida. O comando acertou num documentário sobre o dia a dia de um lar da terceira idade. Primeiro, mostrava como os idosos se divertiam numa aula de motricidade com bolas coloridas. A instrutora era uma rapariga nova, muito elétrica, que encorajava: Vá lá, levantar o braço só mais um pouquinho. Isso D. Esperança. Muito bem, muito bem. E todos sorriam orgulhosos. Depois do almoço, os filhos dos idosos apareceram para visitas. Outra rapariga nova, mas menos elétrica, puxava dos desenhos feitos em digitinta, dos animais feitos em barro, das aguarelas esborratadas e mostrava: Está a ver, foi a sua mãe que fez. Ela tem muito jeito para pintura. Os filhos sorriam embevecidos. Quem diria, mamã uma artista aos noventa anos. A vida é um ciclo. Um ciclo perturbador.

(Imagem: Mais aqui)

stevnnhall_09.jpg

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s