Hoje o autocarro está tão cheio

Quis a sorte que, de há uns tempos para cá, eu apanhe o autocarro setecentos e sessenta e sete duas vezes por semana ao fim do dia, no percurso entre Telheiras e o Fonte Nova. Quis a sorte que nesses dias houvesse sempre jogos dos clubes grandes. Quis a sorte que na cidade florescessem adeptos gritando eufóricos, gritando enraivecidos, gritando doídos, gritando sem voz. Quis a sorte que, talvez por isso, os autocarros fossem sempre tão cheios que lá dentro fazia um calor tropical e os corpos se tocavam, num amontado de braços e pernas impossível de desenhar. Meu braço no seu braço, minha perna em cima do seu pé, meu pé pisando um dedo, meu ombro nas costas dela, meus olhos comendo cabelos. Quis a sorte que se ouvissem as conversas dos outros com tanta clareza como se estivessem sendo sussurradas aos nossos ouvidos. Quis a sorte que essas conversas não fossem mais privadas, caminhávamos tão próximos que elas flutuavam no domínio público e pertenciam a todos no autocarro. Eu também quero dar uma opinião sobre o carro da Goreti, eu também quero dar minha opinião sobre o frango que descongelou para o jantar de hoje, eu também quero dar a minha opinião sobre esse onze no teste de Matemática, eu acho que você deveria ter tido uma nota bem melhor. Acho que foi falta de estudo mesmo. Quis a sorte que todos esses dias que eu andei no setecentos e sessenta e sete, as pessoas sempre se reagissem com surpresa ao autocarro cheio. Como está cheio hoje. Quis a sorte que as pessoas, tão gentis, sempre desculpassem o autocarro cheio, como se fosse uma catástrofe natural. Afinal, quem poderia prever tal acontecimento, da mesma forma que não se adivinham inundações, nem secas, nem erupções vulcânicas. Ninguém, absolutamente ninguém poderia antecipar esse autocarro cheio, esse autocarro onde a qualquer momento podemos esquecer um cotovelo ou um fémur ou um ossinho discreto no meio da multidão. Desculpe, esse joelho é meu. Quando o autocarro arranca, aproveitamos para cair sem rede em cima do rapaz da frente e rimos pedindo desculpa, felizes por nos podermos atirar assim para os braços de um príncipe estranho. Espero que ele me segure. Hoje está tão cheio. Não, hoje não está tão cheio. Vamos parar de mentir, minha senhora. Esse autocarro está sempre cheio. Sempre. Ontem, hoje e com certeza amanhã.

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