Nas estradas da América

Foi uma manhã perfeita. Neste lado do continente fazia um sol aberto e, na rádio, escolheram passar uma canção do Bruce Springsteen. Sempre que o Springsteen toca, Lisboa fica parecendo New Jersey ou Nova Jérsia que é a designação que vem no dicionário. Nova Jérsia é português correto, desse que não se fala nas ruas. Isso quer dizer que a cidade estava de repente industrial, os edifícios eram fábricas e todos os homens fumavam cigarros sujos junto da garagem, com as calças manchadas de óleo. Havia raiva agitando os semáforos, havia cartazes de protesto colados junto da estrada e uma juventude perdida fervendo furiosamente nos clubes noturnos. Lisboa era toda subúrbio americano, era toda sindicato, era toda fumo da chaminé, era toda década de oitenta, era toda you can’t start a fire without a spark. Passando na bomba de gasolina vi um rapaz bonito, de mochila às costas, mas não devia ter mais de vinte e dois anos. Não é politicamente correto uma mulher apreciar um homem tão mais novo. Eu não sou um homem, convenhamos. Porque querer levar para jantar gente mais jovem é privilégio dos homens maduros. O rapaz bonito tinha ar de James Dean e parecia perdido, parecia esperar alguém ou procurar boleia e, se esta fosse uma estrada da América, eu tinha aberto a porta e perguntado: Vai para onde? Mas assim foi só uma manhã perfeita e, neste lado do continente, fazia um sol aberto. Fade out.

(Vídeo: Springsteen e um dos rabos mais vendidos da história. Falo da capa do disco, claro)

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