Despertador

Odeio o meu despertador. Odeio. Odeio. Na verdade, não tenho um despertador. Tive um quando crescia, quadrado e com ponteiros. Agora, o meu despertador é o meu telefone, o meu telefone que me dá tantas alegrias. Dá-me mensagens dos meus amigos, dá-me smiles, dá-me likes, dá-me internet, dá-me fotografias com filtros e dá-me todos os lugares do mundo. Dá-me bilhetes de avião e é um bloco limpo onde posso fazer desenhos. Então, é uma traição quando antes das sete da manhã ele me chama no escuro. Não importa, mesmo que já esteja ficando claro, mesmo que o sol esteja chegando, ainda são só dez para as sete. Só dez para as sete. É imoral acordar tão cedo, todos seriam mais felizes acordando às nove. Sempre acho que àquela hora ainda não é o despertador, não pode ser o despertador. Sempre acho que aconteceu alguma coisa, que alguém me liga com urgência a meio da noite, que deve ser tremendamente importante. Houve também um tempo em que rapazes bonitos me acordavam a altas horas mandando mensagens que eram uivos de saudade. Eu espero que vocês em algum momento da vossa vida também tenham sido acordados por mensagens assim. Que tenham sido acordados por um rapaz bonito – ou por uma rapariga bonita – escrevendo na madrugada as mais patetas frases de amor. Numa noite, um desses rapazes que tinha olhos azuis e sabia tocar guitarra mandou-me uma mensagem às quatro e meia da manhã dizendo: Fiquei com o teu elástico. Eram quatro e meia da manhã, a cidade inteira dormia e ele estava a pensar no meu elástico do cabelo. Foi a coisa mais romântica que alguém me escreveu. Por vezes, essas mensagens tiravam-me o sono. Mas que importa, era tão nova nessa altura que não precisava de dormir. Positivamente não tinha sono. Agora, eu tenho sempre sono. Agora, quando o despertador vem eu peço só mais nove minutos. Eu imploro, só mais sete. Só mais três, mais três minutos apenas. Depois resigno-me e levanto-me guiada pelo cheiro do café na cozinha. É um cheiro imaginário, claro, porque às sete da manhã ainda ninguém fez café cá em casa.

(Imagens: Em 1976, Elizabeth Taylor passou férias no Irão)

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