Dorothy, a substituta

Como todas as pessoas desprovidas de fé, eu tenho um pouco de inveja das pessoas que tem fé. Na verdade, não tenho certeza absoluta da minha ausência de fé, mas a fé aparece-me sempre nos momentos de aflição. Por isso, creio que não é fé daquela mesmo a sério, é oportunismo. Entre as coisas que mais invejo nas pessoas de fé está em primeiro lugar a crença inabalável na vida após a morte, depois a ideia de que se pedirmos muito (ou se merecermos muito) as coisas acontecem mesmo e, finalmente, a convicção de que nunca estamos sós, ou seja Deus está sempre connosco. Esta última encanta-me. Porque eu sinto-me muitas vezes sozinha, sinto-me muitas vezes isolada e, nas encruzilhadas da vida, a única voz que escuto na minha cabeça é a minha. Como assim, vocês não escutam vozes dentro da cabeça? Isso não é normal? Talvez eu seja louca. Não importa. Mas, desde que conheci a Dorothy Parker sinto-me menos sozinha. Dorothy é a minha divindade e suponho que, por vezes, me sinto acompanhada por ela, tal como as pessoas que têm fé. A vida de Dorothy foi uma pirâmide invertida. O início foi suave e cheio de êxitos literários, o final foi de agruras e esquecimento. Se Dorothy tivesse sido tremendamente bem-sucedida na sua vida inteira, talvez não pudessemos ser tão amigas. Dificil ter empatia com gente demasiado abençoada. Desde que conheci Dorothy, ela acompanha-me em todos os jantares sociais. Juntas comentamos os vestidos das mulheres e os copos a mais dos homens, ou os fatos dos homens e os copos a mais das mulheres. Vocês estão pensando: Como ela é mázinha, mas Dorothy nunca diria isso de mim, para ela o comentário social é uma arte. Com Dorothy todas as festas são irónicas, todas as viagens de metro são literárias, os passeios pela rua e as idas ao supermercado são um prazer, afinal tudo está cheio de personagens. Claro que, por vezes, tenho outros escritores falando ao meu ouvido, mas aí tenho que concordar convosco, isso já é loucura mesmo.

(Imagem: Foto de Daniel Ochoa de Olza. Vejam outros vencedores do World Press Photo 2016 aqui)

©-Daniel-Ochoa-de-Olza-La-Maya-Tradition-01.jpg

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2 comments

  1. Fantásticas observações, talvez por partilhar muitas destas opiniões, só não tenho é o jeito de as organizar tão bem! 🙂 E quanto mais as desenvolvesse, mais eu gostava certamente. Que gosto este texto!

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