Olá, o meu nome é Sandra

Todos os dias almoço na cantina do primeiro andar, mas nunca o faço à hora de almoço. Por vezes desço logo ao meio-dia, então é um brunch. Outras vezes, só depois das três da tarde e então é um lanche. Mas, sempre peço uma sopa e o mini-prato. E sempre almoço pensando em Melbourne e na Patagónia e em todos os lugares onde poderia ir um dia. Acho que isso faz de mim uma pessoa distraída. No início, a minha relação com a senhora da cantina era educada, mas não sabíamos o nome uma da outra. Depois, ela fez questão de aprender o meu e durante semanas usava-o sempre. Vai querer uma salada, Joana? Os crepes são de legumes, Joana. Já não temos sumo de laranja, Joana. Até que um dia respondeu: De nada, Sandra. Eu corrigi, de repente atenta, e ela explicou: Desculpe, tem cara de Sandra. Tem cara de Sandra apanhou-me de surpresa. Eu não sabia que tinha cara de Sandra. Nunca ninguém me tinha dito que tinha cara de Sandra. De Marta sim, muita gente diz que tenho cara de Marta. Mas, cara de Sandra era uma originalidade. E, nesse almoço, não pensei em Tóquio, nem no Serengeti, pensei na minha cara de Sandra. Uns dias depois, a senhora da cantina voltou: Já não temos bacalhau, Sandra. E eu de novo: Joana. Ela desculpou-se, mas acho que vi naquele sorriso uma ponta de gozo. A senhora divertia-se trocando o meu nome. Arreliar-me era o seu passatempo, era a sua alegria. Afinal, eu não tinha cara de Sandra, ‘ter cara de Sandra’ tinha sido apenas um pretexto. Hoje ela repetiu. Temos caldo verde, Sandra. Não liguei. Aquilo deixou-a enervada. Então, ia servindo a sopa, enchendo o copo do sumo, pondo guarnição no prato, entregando os talheres, ajeitando o guardanapo e repetindo cada vez mais alto no fim de cada frase: Sandra, Sandra, Sandra. Mas, não corrigi e sentei-me para almoçar, sonhando com as ruínas de Petra. Na hora de pagar, ela estava arrependida, como se tivesse perdido uma melhor amiga. Há pouco troquei o seu nome. É Joana, não é? Não quero mais saber. Prefiro Sandra mesmo.

(Imagem: Bob Dylan e Joan Baez em 1963)

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