Não temos tempo para ler

Se vocês encontrarem as minhas amigas num jantar descontraído e lhes perguntarem o que gostam mais de fazer na vida, elas vão endireitar-se na cadeira, vão abrir muito os olhos pintados e vão responder: Adoro viajar. Adoro ir a espetáculos. E ler, adoro ler, só que não tenho tempo, infelizmente. Não ter tempo é o flagelo da sociedade contemporânea, mas ‘não ter tempo para ler’ é possivelmente a categoria deste problema que mais afeta os meus amigos. Como os entendo. Eu também digo sempre alto e bom som que adorava ir ao ginásio, mas que não tenho tempo, positivamente não tenho sequer quarenta minutos para transpirar numa aula de body combat. Não tenho nem meia-hora para correr desenfreada numa passadeira. Eu não tenho sequer tempo para ir comprar aquelas roupas chiques, muito fluorescentes, que se usam agora para ir ao ginásio. É que trabalho dez horas por dia, depois tomo conta das crianças, colaboro nos trabalhos de casa, faço compras no supermercado, ajudo a fazer o jantar e, finalmente, tenho que ver duas horas de reality shows na televisão sobre gente muito bronzeada que vive em Los Angeles ou sobre crianças que participam em concursos de beleza ou sobre operações plásticas que correram mal. É um dia cheio, convenhamos.

Mesmo assim, apesar de não ter sequer dez minutos para esticar as pernas num jardim, arranjo sempre tempo para ler. Creio que a minha sorte foi nunca ter tido vontade de aprender a conduzir, por isso, venho de transportes públicos para casa. Apanho o comboio das cinco e trinta e oito na estação do Oriente e naqueles vinte minutos de viagem até Benfica, abro um livro e leio. Às vezes, leio também durante a meia-hora de almoço, ou leio no elevador, ou leio enquanto espero nos consultórios médicos. Leio muito, por exemplo, na Loja do Cidadão. Porque é tão óbvio quanto isso: sempre arranjamos tempo para o que gostamos de fazer. Então, eu devia simplesmente dizer a verdade e a verdade não é que não tenho tempo para ir ao ginásio. A verdade é que odeio exercício físico. E, as minhas amigas deveriam também deixar dizer que adoram ler. A verdade é que elas não têm paciência, positivamente não têm paciência para ler livros. Agora, os planetas podem continuar girando nas suas órbitas geométricas. Ponto final.

(Texto publicado hoje no Lifecooler. Mais aqui. Muito obrigada pelo convite)

(Imagem: Lendo na praia pela lente de Karen Radkai para a Vogue em 1954)

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