As manas

Maria e Carolina são iguais e nunca na vida desejaram ser outra coisa que não fosse serem assim iguais uma à outra, duas laranjeiras dando flor em simultâneo. São iguais como dois discos digitais gravados na mesma máquina, com a mesma informação. São o mesmo documento. São duas partes do mesmo bicho e as suas gargalhadas fazem o chão trepidar com a violência dos vulcões chilenos. Apesar de iguais, são muito diferentes. O cabelo de Maria é castanho muito escuro, o de Carolina quase loiro, mas ambas o usam escorrido, com risca ao meio e a bater no antebraço. Maria é alta, com pernas compridas, Carolina é pequenina e tem mãos de fada. Mas, usam as mesmas calças justas e as camisolas de algodão que compram juntas no centro comercial depois das aulas. Nos dias de chuva, vestem um impermeável idêntico. Maria recebeu-o no natal e no regresso das férias foram as duas comprar o mesmo modelo para Carolina. Moram em pontos diferentes da cidade, Maria numa casa velha junto ao rio e Carolina num condomínio na parte norte, mas frequentam o mesmo colégio, são colegas de turma, partilham a secretária, fazem juntas os trabalhos de Geografia, têm as duas ‘notas fracas’ a Português e apanham o metro às terças e quintas para nadarem na piscina azul do maior clube do distrito. São as manas. Tipo, somos manas, mesmo. E então, quando chegou o Diogo querendo namorar os cabelos loiros de Carolina, ela logo avisou: Diogo, tens que gostar do nós igual. Nós somos as manas. Ele disse que sim, mas não tinha realmente escolha e continuou a elegê-la. Seguia-a pelos corredores da escola guiado pelos pirilampos que viviam no seu coração. E, nos intervalos, enrolava-se no seu braço como uma cobra submissa. Esse sentimento era uma competição desleal para Maria, que teve que o combater com todas as flechas envenenadas em seu poder, imobilizando-o com rapidez, uma vez que a reação ocorre nos músculos do pescoço. Diogo deixou os pirilampos fugirem e desistiu. Carolina fingiu não se importar. Ficou só uma espécie de rancor.

(Imagem: Duas irmãs, c.1615 por Cornelis de Vos)

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