Cabeleireiro de bairro

Aconteceu em San Diego, nos Estados Unidos. Horas depois de ter ido ao cabeleireiro para cortar o cabelo, uma mulher de 29 anos, regressou ao salão armada e disparou três vezes contra o responsável pelo novo visual. Ah, quem não se identifica com esta mulher? Felizmente, a arma teve uma avaria e ninguém se magoou, mas o gesto ficou lá. Eu também já tive vontade de partir tudo num cabeleireiro. No sentido figurado, claro. A primeira vez, foi há milhões de anos num salão com nome estrangeiro que praticava preços inflacionados e ficava na Baixa. Fui uma atendida por uma cabeleireira britânica tão chique que não era uma cabeleireira, era uma top stylist. Era tão chique que nem sequer falava português e então a conversa foi toda em inglês. Talvez o problema tenha sido esse, talvez em vez de perceber que eu queria madeixas loiras, ela tenha entendido que eu queria madeixas verdes, oh yeah. Porque foi esse o resultado final. É o que dá ter um ar à frente. Ela, muito british, muito fleumática, fingiu que não era nada com ela. Afinal, ela era a top stylist estrangeira, eu era uma mísera cliente nacional. Bang bang. A segunda vez, foi de novo num cabeleireiro chique que também ficava perto do Chiado. Este era tão exclusivo que só tinha três cadeiras e nas outras duas estavam sentados dois atores de novelas. Quando me sentei na cadeira em pele, eu tinha cabelo loiro e pedi para me escurecerem um pouco o tom. Coisa subtil, só para não estar tão amarelo. Mais uma vez, quem me atendeu não foi uma pessoa qualquer, foi uma Senior Colour Technician, uma deusa das nuances e das tintas. Mas, depois de horas mexendo nos pincéis, quando tirou a toalha – tcharan – meu cabelo estava preto. Preto asa de corvo, preto como se eu me tivesse juntado aos Moonspell e fosse viver a minha nova vida no gothic metal. Fez-se silêncio no salão, os atores da novela olharam perplexos, as borboletas amarelas suspenderam o seu voo. A Senior Colour Technician não se atrapalhou e logo explicou que aquilo saía com duas lavagens. Mas, na segunda-feira, eu tinha trabalho, um monte de reuniões, e não dava para ir no estilo princesa gótica. Bang bang. No dia seguinte, fui a outro cabeleireiro. Já adivinharam, certo? Era super-chique também. Essas senhoras, por algumas centenas de euros, conseguiram que o meu cabelo passasse de negro-branca-de-neve para apenas castanho escuro. Bravo. Moral da história? Nos cabeleireiros de bairro é que se está bem. Bang bang.

(Imagem: Olha aí as janelas do André Vicente Gonçalves no Honestly WTF)

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One comment

  1. ahahahahahah estás sempre lá miúda !
    Mas agora vou-te deixar uma sugestão que também daria um belíssimo filme, mas de outra categoria, proporcionalmente inversa. Um cabeleireiro em Algés de gente negra, que tem um recepcionista com um microfone através do qual chama um das dezenas de funcionárias só par ti: Cleida no brushing ! ahahahah é real mesmo
    ( bom fim de semana)

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