Eu não quero ser a Barbie

Olha aí a nova Barbie que recebeu finalmente a tão esperada makeover. Não sabem o que é uma makeover? É aquela tendência tão século vinte e um em que fazemos com que alguma coisa fique a condizer com as normas sociais do nosso tempo. Naquelas makeovers televisivas, por exemplo, eles iriam deitar fora todo o vosso guarda-roupa e esticar-vos o cabelo para ficarem mais parecidas com as estrelas lá em Hollywood. Bem, a Barbie teve uma dessas makeovers e todos aplaudiram. Clap, clap, clap. Agora, a Barbie são trinta e três bonecas representando quatro tipos de corpo, trinta tonalidades de cabelo, vinte e quatro penteados, vinte e duas cores de olhos, catorze estruturas faciais e sete tons de pele. O monstro loiro de medidas impossíveis pode agora ser tall, pode ser petite, pode ser curvy. Bravo. Ah, não queremos que ninguém se sinta posto de parte. Embora algumas mães já se tenham feito ouvir. Estão contentes sim, mas para quando uma Barbie ainda mais redonda, para quando  uma Barbie com borbulhas, para quando uma Barbie com olheiras, para quando uma Barbie ainda mais realista? ‘O mundo em que vivemos mudou’, disse ao Público Sara Marçal, responsável de marketing da Mattel Portugal, empresa que fabrica a Barbie. Mas, não foi o mundo que mudou não. As mulheres sempre foram assim. As mulheres sempre foram de diversas formas, de diversas cores e feitios, sempre foram simpáticas ou agrestes, sempre foram argutas ou burras. O mundo não mudou, quem mudou fomos nós. É ótimo que a Barbie seja mais diversa, mas é sempre surpreendente que seja apontada como causa da baixa autoestima das crianças pequenas. Afinal, também compramos fadas ou estrumpfes para as nossas filhas e não esperamos que tenham asas ou fiquem azuis. Também compramos Action Man* para os nossos filhos e ninguém se preocupa com os standards irrealistas impostos aos rapazes. Se uma menina de oito anos se sente pressionada para ser como a Barbie, o problema não está na boneca. Da mesma forma que, quando as mulheres se dizem pressionadas para ser como as modelos das capas de revista, o problema não está necessariamente nas modelos. Eu, por exemplo, quando entro numa livraria sinto-me muito pressionada para ser mais inteligente e para escrever uma obra digna de um Nobel. Contudo, não é o facto de ser incapaz de escrever como a Doris Lessing que me vai fazer reinvindicar o fim dos livros irrealisticamente bons. Não imploro: Não vendam Caderno Dourado, por favor. Ver esse livro nas prateleiras das livrarias, ali escarrapachado à vista de todos, faz-me ter expectativas irrealistas sobre a minha própria inteligência. Ah, eu sei, isto é um exagero. E, de qualquer forma, força aí Barbie. Tudo de bom para ti.

(*Eu sei que há pais que só compram brinquedos de madeira, de tecido, orgânicos, etc. para os filhos. Relaxem, por favor, este texto não é para vocês)

(Imagem: Reflexos. Mais aqui)

Egyed_Viktor_1

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2 comments

  1. Tão de acordo…
    O problema não está nem nunca esteve na boneca. É uma marca, é uma identidade, foi criada assim, tal como tanta outra bonecada.Não sou a favor desta mudança pelas razões apontadas. Curto e grosso, irritam-me os moralistas e seus falsos moralismos. Acredito também que seja estratégia a ver se a boneca volta à ribalta, não sei, nunca segui muito o seu percurso, mas talvez começasse a estar esquecida.

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