A mulher feia

A mulher mais feia do mundo jantou esta segunda-feira no restaurante Buxa no Largo da Oliveira, bem no centro de Guimarães. Nesse restaurante pode comer-se uma dose bem servida de posta transmontana com grelos e batatas a murro por apenas onze euros. Foi o que a mulher pediu e acompanhou com uma sangria de vinho branco, num jarro geladinho decorado com folhas de hortelã. Má escolha. Na nossa mesa, optámos pelo Duas Quintas, porque o tinto é o que melhor acompanha essa carne tenra. A mulher feia era feia no sentido mais desinteressante do termo. Não era feia do jeito exótico daquela atriz que trabalha com o Almodovar, não sei se sabem quem é. Essa tem uma feiura apetitosa, gloriosa, uma feiura inesquecível, que a sétima arte teima em celebrar. Mas, esta mulher do restaurante em Guimarães era feia de modo apagado e infeliz, como as frutas pisadas que nem dão vontade de olhar. Tinha olhos pequenos, quase sem pestanas, e um nariz enorme com um socalco pronunciado logo a sair da testa. Pensando melhor, talvez os olhos não fossem assim tão pequenos. Talvez fosse o tamanho monstruoso do nariz que os fazia insignificantes. Isso e o facto da mulher não ter nenhuma maquilhagem, nem um risco preto nas pálpebras, nem uma sombra azul, é do conhecimento comum que uns olhos pintados ajudam a disfarçar um grande nariz. Assim, sem maquilhagem, dava para ver também as manchas avermelhadas na pele tão branca, como se fossem pequenas ilhas formando arquipélagos junto das orelhas e do queixo. Não, a mulher não tinha feito nenhum esforço para disfarçar a sua fealdade, saíra de casa assim mesmo para jantar no centro da cidade, sem sequer ter passado pente no cabelo, que se erguia imenso, frisado como uma nuvem de algodão fofo. Usava uma camisola branca, cheia de borboto e umas botas de montanha alpinas, como se nos quisesse convencer do seu dinamismo. Mas, essa mulher usava também outra coisa. Usava um homem que estava sentado na sua frente, todo inclinado sobre ela e que lhe segurava a mão. Às vezes, ela retirava a mão para pegar na faca e tirar um pouco de carne, mas mal abandonava os dedos na mesa, o homem corria urgentemente a segurá-los. No fim da refeição, antes mesmo da sobremesa, o homem saiu do seu lugar e sentou-se junto dela, beijando-lhe o pescoço e, mais uma vez, segurando-lhe a mão. Nesse momento, todas as mulheres maquilhadas, empoleiradas, todas as mulheres de pele lisa e lindos cabelos entrançados que brilhavam como astros naquele restaurante, olharam suspensas a mulher feia. Ah, pensaram sonhadoras, como era amada essa mulher tão feia.

(Imagem: Ernest Hemingway a bordo do seu iate, cerca de 1950)

Ernest_Hemingway_1950.jpg

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s