O meu bairro

O meu bairro é o último a ter código postal de Lisboa. Duas ruas à frente já é outra cidade. Duas ruas à frente já é Amadora e na Amadora, dizem-me, tudo é diferente. Eu nasci nesta mesma rua, um prédio abaixo e, nesse tempo, moravam aqui as famílias da classe média mais média que esta cidade já conheceu. Moravam nos apartamentos de salas amplas, porque todos deitaram abaixo a parede que dividia a sala de estar da sala de jantar. As salas tinham vista para a mata, onde havia parque infantil e quiosque de refrescos. Nem parece que estamos em Lisboa, diz a porteira com ar consolado, porque da janela só se vê o verde, embora a vista das traseiras dê para as parabólicas sujas da Damaia.

Há trinta anos, essas famílias eram numerosas. Os vizinhos do primeiro esquerdo acomodavam seis crianças em cinco assoalhadas, eram todos rapazes com cara de grão-de-bico e nunca os distingui. Os do primeiro direito tinham cinco filhos e os vizinhos do lado tinham quatro. Só meus pais foram comedidos, tiveram apenas dois. Nestas famílias, os homens saiam de fato cinzento de manhã e trabalhavam em empresas, as mães eram educadoras de infância. Quando os anos noventa chegaram, chegou também uma abundância nunca vista e a rua reluzia com tanto automóvel novo. Cada família passou a ter dois carros: o carro do pai e o carro da mãe. Em alguns casos, tinham três ou quatro, sendo que um deles era um jipe, porque também se restauraram montes no alentejo para passar o fim de semana. Na minha rua, os adolescentes andavam de mota e à sexta à noite roubavam os auto-rádios dos vizinhos para irem dançar nas discotecas ao pé do rio.

Mas, estes tempos já passaram. Agora no meu bairro ficaram só os velhotes, os filhos foram morar longe nos novos bairros da classe média. O meu bairro é uma espécie de Florida, é o paraíso dos reformados, o paraíso dos avós, aqui vive-se em câmara-lenta, exceto à noite quando chegam as luzes azuladas das ambulâncias que sempre levam alguém. No meu bairro morre-se muito. É assim que o tempo se vinga da nossa felicidade. Ao fim do dia, as ruas quietas atraem uma fauna nova. Seis da tarde quando chego a casa há uma fila de carros estranhos estacionados, com gente que não quer ser vista. Eu digo-vos quem está dentro desses carros. São casais maduros, falando baixinho, com os vidros subidos. Elas de cabelos pintados, anéis de ouro presos nos dedos anafados. Eles também de cabelo pintado, o blusão de cabedal tentando disfarçar a barriga saliente. Volta e meia elas choram, volta e meia eles imploram. Amores clandestinos. São assim agora os fins de tarde no meu bairro.

(Gif: Margot Tenenbaum)

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