Manual de poesia

Às sete da manhã, todo o continente estava adormecido, eu mexia devagar o café sem açúcar, sem leite, só a colherinha mergulhada no líquido. A casa respirava fundo e na mata em frente os pássaros calados. Logo depois abri o telefone e as frutas ajeitaram-se de novo em volta do sol. O mundo girava na velocidade habitual e a poesia fazia como sempre as grandes manchetes do jornal. Hoje por exemplo, falando da doença terrível, o título gordo anunciava: A repentina fama da floresta onde o vírus foi descoberto. E logo o texto continuava como se fosse um romance: Ainda há bem pouco tempo a floresta ugandesa de zika era uma pequena reserva conhecida apenas por ornitólogos e cientistas. Havia também a história das laranjas portuguesas que começava assim: Como é que se distingue a laranja do Algarve das espanholas da Andaluzia? À primeira vista, lavadas e engraxadas, todas parecem iguais. Mais abaixo, outro título: O Homem não foi à Lua? Descoberta fórmula matemática que deita por terra esta e outras teorias da conspiração. E, ao lado, o maravilhoso estrondo em Nova Iorque que se ouviu a oitenta quilómetros de distância. Essa era a mais bonita, ora vejam: Os serviços geológicos dos Estados Unidos registaram ontem algo semelhante a um tremor de terra na região costeira de Nova Jérsia que teria resultado de um estampido sónico sobre a cidade de Nova Iorque. Um estampido sónico. Todo o mundo que gira está nas páginas de jornal. Havia também um artigo que falava sobre o início do amor. A atriz Dakota Johnson, escrevia o Diário de Notícias, atrasa entrevista para namoriscar com jornalista. E o texto explicava: Começou por elogiar as suas meias e rapidamente perguntou se ele era solteiro. Bem no fundo da página vinha o apelo mais profundo, chegava da barriga da Terra e era a família chamando o homem enlouquecido, que sorria numa foto a cores, alheio a tanta preocupação: Estamos desesperados sem saber de ti. Caso não tenhas como voltar para casa, nós vamos buscar-te onde estiveres. Amamos-te e queremos estar contigo. Os jornais, esses grandes manuais de poesia.

(Imagem: Clifford Coffin, Vogue, Junho 1949)

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