A reunião

Espero que não falte muito para essa reunião terminar. Começou há seis minutos, mas já estou a fazer quadradinhos no papel. Tenho que ver o que isso significa. Se eu fizer uma pesquisa agora no meu telefone sobre ‘o que significa desenhar quadrados’ será que alguém repara? Melhor ficar quieta. Será que significa que sou uma pessoa quadrada? Que horror. Vou ter que verificar isso mal saia da reunião. Espero que esta reunião acabe antes da hora do jantar. Ainda são só cinco da tarde, mas nunca se sabe. Há nove pessoas nesta sala e todas vão querer falar. Menos eu. O meu objetivo é conseguir ficar calada, desenhando os meus quadradinhos na folha branca. Tive um chefe uma vez que proibiu as pessoas de desenharem durante as reuniões. Ele disse isso precisamente no início de uma reunião e passamos as duas horas seguintes controlando as canetas uns dos outros. Foi difícil. Éramos um grupo muito artístico. Passaram dezanove minutos. Ainda estamos na introdução. Tenho sede, mas se beber muita água vou ter vontade de ir à casa de banho. Melhor não beber água. Ou talvez seja melhor beber muita água, assim tenho desculpa para me ausentar uns minutos. Começo a beber água. Passou quase meia hora. O meu colega do lado olha fixamente a parede. Há quem pense que ele é capaz de dormir de olhos abertos como os homens da tribo da insónia mas, na verdade, está a contar os mosaicos brancos. Ele calcula que sejam perto de dois mil. Pelo ar concentrado, está a tirar isso a limpo neste preciso momento. Passou quase uma hora. Ele escreve 2.144 na sua folha branca e sorri. O que é que foi isso que perguntaram agora? Todos estão a olhar para mim. O colega dos mosaicos brancos murmura: O evento de dia nove. Obrigada. Eu falo durante um minuto, muito corada. Sinto-me transpirar, porque a diretora olha fixamente para a minha folha branca cheia de quadrados encavalitados. Uma vozinha dentro de mim consola-me: Talvez ela tenha achado piada. Mas, essa mulher não acha graça a nada. Passou uma hora e meia. O homem da contabilidade não se cala? Já chega. Saio e vou à casa de banho. Pesquiso no telefone ‘desenhar quadrados’. A internet responde: ‘Tem tendência para ser muito organizado. Revela uma personalidade lógica e um pouco perfeccionista’. Que coisa hilariante. Volto para a sala. Está um cheiro de suor cansado. São sete da tarde, é de noite, não há mais nada para falar. Free Willy. Cada minuto arrasta-se por milhões de anos. É uma boa ocasião para experimentar meditação. Não consigo esvaziar a mente, mil coisas atropelam-se na minha cabeça. Ovos de codorniz, um voo para Londres, o verniz azul da miúda do marketing, mosaicos coloridos, tenho fome, vai chover amanhã. São sete e quarenta e um e o meu cérebro está finalmente em branco. A diretora começa a arrumar os papéis. Acabou a reunião.

(Imagem: New York City Girls, 1958. Na Vogue)

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