O imbecil da minha amiga

Começo por dizer que foi um jantar muito desconfortável. Talvez porque tinha estado a chover e eu tinha pisado uma poça de água e fiquei com as botas e as meias molhadas. Daí talvez o princípio do desconforto. Meu corpo inteiro gelado por causa daquela estúpida poça de água e daquele estúpido dia de chuva. Como odeio jantar fora em dias de semana, pensava eu, mas entrei no restaurante a sorrir, como se não estivesse estado vinte minutos em casa tentar apagar as olheiras com um pó bege. Antes de me sentar, apanhei o reflexo dos meus enormes círculos brancos no espelho e logo me enfiei na casa de banho a tirar o excesso de maquilhagem com papel higiénico. Quando voltei à mesa, as minhas olheiras estavam restauradas em toda a sua glória. Nessa mesa, estava sentada a minha amiga com um chapéu na cabeça, uma daquelas coisas palermas que os ingleses usam nas corridas de cavalos, e um vestido acetinado. Vim do trabalho. A minha amiga trabalha na televisão por isso, para ela, é baile de máscaras todos os dias. Sentado ao lado dela estava o novo namorado. A minha amiga esperou trinta e seis anos para se apaixonar e, finalmente, decide apresentar-me este imbecil. Digo imbecil não por maldade, é uma constatação. Este homem – este rapaz? – tem ar de imbecil. Vou tentar não me deixar influenciar, mas acho que é esta terrível combinação de olhos descaídos e lábios exageradamente grossos. Algo assim, não sou boa em traços fisionómicos. Logo ali dá para perceber que esse imbecil se acha muito bonito, acha-se um galã, mais ainda agora que namora com uma vedeta televisiva. Acha-se tão bonito que, mesmo agora enquanto lhe digo olá, ele está a olhar para um ponto distante por cima do meu ombro. Está a olhar para a rapariga da mesa detrás, a bonitinha de cabelos vermelhos. Poderá haver pior que um imbecil que se acha bonito e galanteia outras mulheres? Só se for um imbecil que mastiga com a boca levemente aberta e que troca beijinhos gordurosos com a minha amiga durante o jantar. Chama-lhe ‘a minha gaja’. Oh, que bela ideia tiveste. Adoro jantares a meio a semana, digo eu. Ele vai trocando mensagens no telemóvel e vai olhando a ruiva atrás de mim e a minha amiga dá-me pisadelas excitadas debaixo da mesa. Quando ele se levanta, alegadamente para ir à casa de banho, ela pergunta: Não o adoras? Senti um calafrio e acho que não foi das meias molhadas. Sim, é muito porreiro. É isso, sou uma cobarde. Uma mentirosa. Levanto-me para sair e digo ao namorado novo: Prazer em conhecer-te. Ele responde: Obrigado. Querida amiga, se agora estás a ler este texto: larga esse imbecil.

(Imagem: O mundo surreal de Nancy Fouts)

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One comment

  1. ahahhahaha genial !
    eu acho que não sou cobarde, mas uso muito da ironia e de algumas dicas para lhes tentar dizer o mesmo: larga esse imbecil ! mas depois penso, há pessoas que só gostam de ser masoquistas 😛
    *

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