Não tenho tempo para escrever

Era uma vez doze estudantes Erasmus que dividiam duas casas geminadas em Horsforth, bem no norte de Inglaterra. Três franceses, oito espanholas e uma portuguesa. As casas eram de tijolo laranja, mas o céu foi sempre cinzento. Ou preto, quando anoitecia. Não havia sol nunca. Por isso, a minha pele tinha ficado translúcida quando regressei a Lisboa. Naquelas duas casas, havia muitas discussões. Quase todas eram sobre o facto de haver festas tardias e da cozinha estar imunda de manhã ou sobre o facto do americano gordo ficar sempre a dormir no sofá da sala. Ninguém gostava do americano gordo, convidavam-no por pena e ele acabava passando a noite a suar e a babar as almofadas. O problema das pessoas que viviam naquelas casas era que, apesar de todos termos vinte anos, as nossas idades serem muito diferentes. Na realidade, Miriam, a espanhola, já era uma mulher de meia-idade e Max, o francês bonito, era só um garoto de treze anos. Saindo daquelas casas, havia as aulas da Universidade, mas sobre isso não vos posso dizer nada. Esqueci-me de tudo. Lembro-me apenas de um outro estudante, um inglês, estar a falar com a professora de Myths and Media no final da aula. Ele dizia: Gosto muito de escrever, mas com a universidade não tenho tempo. Ela respondeu: Não tem tempo agora? Acha que vai ter mais tempo quando tiver um emprego, filhos e contas para pagar? Palavras sábias, professora. Todo o tempo é uma ficção.

(Imagem: Apanhada no Estoril, em 1950, por Gordon Parks, fotógrafo da Life Magazine)

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