Desejo de ano novo

A chegada do novo ano sempre perturba o ritmo da savana. Porque, para a maior parte de nós, do tempo novo é uma oportunidade renovada de pedir algo. Vivemos pedindo, vivemos acreditando que somos coisas sagradas e que todos os desejos nos devem ser concedidos. É justo. Quero ganhar o euromilhões. Quero arranjar um namorado. Quero um emprego. Quero deixar de fumar. Quero beber água na cratera de Ngorongoro. Nos anos anteriores, eu pedi furiosamente um desejo. Mas, esse desejo não me foi concedido. Ainda. Muitos outros me foram concedidos. Todos os dias uma imensidão de desejos se concretiza. Porque acontecem todos os minutos, deixei de os considerar mágicos. Todas essas bençãos são ‘o normal’. No dia em que, por um terrível acaso, elas se romperem como a barragem enlouquecida e deixarem sair toda a água, eu não vou compreender. Vou dizer: Como é que isto foi acontecer? E vou parecer genuinamente perplexa, pulando como uma impala que se assustou com o cheiro dos predadores. Só aí, eu lhes vou dar o devido valor. Como dou valor agora a este desejo não concretizado. Fiquem sabendo que, este ano, decidi mudar de estratégia. Este ano, decidi não pedir este desejo. Vou fingir que não quero mais essa coisa. Talvez assim a apanhe de surpresa e a prenda no meu mosquiteiro. Talvez assim ela finalmente aconteça. Pode não parecer, mas sou muito supersticiosa.

(Imagem: John William Godward)

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2 comments

  1. Também tenho um desejo que há anos e anos renovava e refazia na passagem do ano. Esse desejo continua por concretizar. Nos últimos anos deixei de lhe dedicar tempo na hora de comer as passas. Não é que tenha deixado de o desejar. Não é que ele seja assim uma coisa ao nível da utopia e no domínio do impossível. Simplesmente não acontece. Simplesmente ainda não aconteceu. Talvez.

    Este ano, tal como nestes mais recentes, o meu desejo para o próximo ano resume-se ao mais importante e legítimo que o ser humano pode ambicionar: saúde para todos. Assim pareço uma idosa em matéria de desejos expressos. Mas lá no fundo nunca perdi o meu desejo de jovem adulta. Não faço é a mais pequena ideia de como reagirei quando, e se, um dia já completamente distraída desse meu desejo ele aparecer sem avisar.

    Gosto muito de ler o seu blogue, Joana. Que em 2016 seja realmente preciso usar o seu mosquiteiro 🙂
    Feliz Ano Novo!

    Susana
    http://asmanhasperfeitas.blogspot.pt/

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  2. Muito obrigada pelo comentário Susana 🙂 ‘Não faço é a mais pequena ideia de como reagirei quando, e se, um dia já completamente distraída desse meu desejo ele aparecer sem avisar’. É isso mesmo.

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