Ninguém usa cobertores

A minha mãe tem um armário cheio de cobertores. Não sei o que lhes fazer. Ninguém usa mais cobertores. Verdade. Todos dormem de edredon. A minha mãe também tem um armário com casacos que duram uma vida inteira. Casacos bons. Só que ninguém quer casacos que durem a vida inteira. Afinal, compram-se casacos novos todos os anos. É como pedir uma sandes num lugar da moda de Lisboa. Já não há sandes em lugares da moda. Há wraps. Há tostas. Mas, também já não há tostas mistas. Há tostas de ricotta com tomate cherry. Ou de peito de frango com cebola caramelizada. Nenhuma destas tostas leva alface, a alface está fora de moda. Todas têm agora rúcula. Ou agrião. Nesses locais, pedir o café tornou-se muito complexo. Deixou de haver a velha distinção: bica, meia de leite, garoto, galão. Agora há também latte, machiatto, mocha, affogato, expresso royal, há café aromatizado, café com caramelo, quente, frio, com soja, sem lactose. Tudo isto me faz lembrar também as boutiques de roupa. Agora as boutiques são de pão, por exemplo. Mas, não há mais boutiques de roupa. Sou uma senhora de outro tempo.

(Imagem: Winslow Homer, Eagle Head, Manchester, Massachusetts (High Tide))

Winslow_Homer_-_Eagle_Head,_Manchester,_Massachusetts_(High_Tide)

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