Dente de tubarão

No quarto do meu filho, tem um dente de tubarão pendurado no candeeiro. Houve um verão que ele quis usá-lo ao peito, um dente de tubarão cravado no coração, como um menino-pescador que conhece as marés. Dizem que os tubarões perdem em média seis mil dentes por ano. Esse dente de tubarão anda navegando cá em casa há muitos anos, alguém o trouxe do Senegal, mas é coisa que não se compra mais, não é mais vendável. Às vezes, fico pensando nesse tubarão cinzento e na imensidão do oceano, em como os tubarões passam anos dentro de água, percorrendo quilómetros, comendo outros peixes, em como existem desde o começo do mundo. Um tubarão é um resto de poeira de estrela, tem nas escamas os pedaços da explosão gigantesca. Não conheço ninguém que não tenha medo de tubarões, ninguém que não tenha tido uma noite um pesadelo com tubarões. O que assusta no tubarão não é a sua mordida, é esse arrebatamento do universo que nos leva ao início do tempo. Por isso, se vendem dentes inofensivos no mercado de rua em Dakar, para conquistar o pavor. Tubarão lanterna anão, tubarão-branco, tubarão-tigre, tubarão-baleia, cação-bruxa, cação-anjo. Faz tempo que não fico salgada, que não tomo um banho de mar, nos últimos anos tenho sempre frio, fico enrolada na toalha contando os barcos no horizonte. Muitas vezes, fico quieta na praia pensando nos tubarões, os bichos mágicos que fundem o passado e o futuro.

(Imagem: O instagram de João Bernardino. Mais aqui)

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