Hoje foi dia de nevoeiro misterioso

Se vocês não trabalham em Lisboa ao pé do rio, então não viram o nevoeiro misterioso que se instalou esta manhã no meio das palmeiras. Cá de cima, do meu local de trabalho, dava para ver o Oceanário e o Pavilhão Atlântico surgindo no meio da bruma, como naves espaciais abandonadas. Era um nevoeiro bonito, muito fino, muito fresco espalhando-se pela cidade como um gás venenoso. A qualquer momento podia ter surgido o barco viking de Érico, o Vermelho. Se vocês não trabalham no meu edifício, então não viram a Raquel chegar logo cedo com o casaco novo, todo vermelho e os lábios pintados a combinar. Um espanto, disse o Tiago, fingindo cobiçá-la. Também não ouviram o Jorge dizer que conhecia o novo ministro das Finanças, quando eram exatamente dez horas junto da máquina do café da ala norte. Não viram os olhos húmidos do rapaz lá do fundo depois de ver um anúncio de natal com gatos no computador, não ouviram o senhor gordinho com ar de executivo dizer ao telefone: Não, Glória, este fim de semana não posso ficar com os miúdos. Não viram o cabelo loiro do novo segurança do edifício – dizem que tem mãe russa – não comeram a sopa de espinafres que hoje serviram na cantina, não ouviram a colega do lado dizer: Morro de ciúmes do meu marido, simplesmente morro. Às duas da tarde, o nevoeiro levantou e o dia voltou a ser inteiramente banal.

(Imagem: Este retrato aqui)

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