A imperatriz tirana

Do meu lado da família os velhos morrem em casa, diz ela como um atestado de superioridade. É uma mulher baixa, muito baixa, mas sem complexos. Um dia um rapaz enfezado perguntou-lhe: Não tens complexos por seres tão baixa? E ela logo respondeu: Antes baixa do que estúpida e o rapaz corou. O estúpido era ele. A mulher está cada vez mais pequena, mas o nariz vai crescendo. Cada vez mais comprido, cada vez mais feio, cada vez mais ajuizado. Do meu lado da família os velhos morrem em casa, repete ela e isso é uma censura que pretende dividir as águas limpas da sua barragem das águas sujas da barragem dele. Ela faz sempre isso quando estão à mesa os três. Ele, ela e a filha. A avó do marido está num lar de terceira idade. Abandonada lá faz uns dez anos. Acharam que morreria logo. Mas, o tempo passa e ela revigora-se, cada vez mais gorda e cada vez mais opulenta, ela que aos setenta parecia mirrar para caber no caixão, agora exibe uns oitenta imperiais. Está na flor da idade. A avó viúva comporta-se como uma criança. Amua, faz birras. Tem um feitio caprichoso. Faz da vida dos filhos um suplício, chorando e exigindo caixas de bombons e pacotinhos de frutos secos e croissants da Benard e fatias de bolo rei que depois esconde atrás da cabeceira da cama para comer à noite. Às escondidas.

(Imagem: Sophia Loren na sua villa romana em 1964 fotografado por Alfred Eisenstaedt para a Life Magazine)

lorenpool

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