Gente do instagram #1

Há uma mãe no instagram que tem duas filhas. As miúdas têm um ar apagado e desluzido, apesar da filha mais velha ser muito loira, o que em Portugal é um equivalente de beleza. Todos os dias a mãe veste as filhas, mas não as veste apenas com cuidado. Veste-as como se vestisse bonecas que adornam uma vitrine. Veste-as com o esmero dos trajes fúnebres dos faraós. Eu já vi as filhas dos Reis de Espanha e, acreditem, são muito informais comparadas com este duo. Aqui, nada é deixado ao acaso. As miúdas usam enormes golas brancas imaculadas, as miúdas usam laços no cabelo e nas meias, as miúdas usam uma loucura de padrões florais. Tantos padrões florais – nas jardineiras, nas saias, nas blusas – que parecem as almofadinhas onde se espetam alfinetes. Parecem os saquinhos de alfazema que se pôem no guarda-roupa para perfumar os casacos. Parecem rebuçados muito docinhos, embrulhados em papel festivo. Há umas fotos da semana passada em que as miúdas foram à praia. Brincaram na praia de sapatos. Brincaram na praia de laço. Brincaram na praia com as golas enormes. Brincaram na praia com jardineiras aprumadas a tolherem-lhe os movimentos. Mas, sobretudo, posaram para as fotografias.  Todos os dias a mãe coloca fotos das filhas no instagram. Fotos de lado, de frente, a chorar, a rir, pensativas, sonhadoras, a fazer um bolo, a fazer um puzzle. Fotos lindas. No final de cada foto, a mãe deixa indicações das lojas onde se podem comprar aquelas roupas. ‘Que queridas’, escreve a mãe. ‘Que queridas’, escrevem nos comentários. Todos são unânimes ao celebrar aquela perfeição artificial. Todos menos o senhor que ontem às quatro da tarde escreveu: ‘E onde se podem comprar as meninas?’. Ah. Que politicamente incorreto.

(Vídeos: Ouvi a versão que os Hot Chip fizeram do ‘Dancing in the Dark’ do Bruce. Fraquinha. É preciso ter nascido em New Jersey para cantar a letra com toda a frustração que ela merece. O vídeo sim parece estupendo, mas também não bate a Courtney Cox a subir ao palco no teledisco original)

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One comment

  1. sou alérgica e tenho alguma pena da ultra exposição, do ridículo, a que estas progenitoras expõem (mesmo como em expositores) as suas crias…..

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