O cruel inverno lisboeta

Há vinte anos, fui estudar na Noruega. Lá, tudo me impressionou. O céu azul em pleno inverno, a cor do mar, as mulheres ficarem bem de cabelo curtinho, como eles eram bonitos, como – apesar de serem tão altos – comiam tão pouco e como consumiam coca-cola e chocolate como se não houvesse amanhã. Mas, o que mais me impressionou foi o conforto. Porque, eu vinha de Portugal e os nossos invernos são os mais cruéis do mundo. As gentes de Tromsø, da Sibéria, da Lapónia, do Alasca não sabem nada de frio. O inverno lisboeta é tão duro que cheguei a conhecer uma estudante de Erasmus da Letónia que interrompeu a sua estadia em Portugal porque não aguentou o frio. Verdade. Agora digam-me se conhecem algum estudante português que tenha abandonado o Norte da Europa por causa do frio?

Em Portugal, sofrer no inverno é uma causa nacional. As nossas casas são concebidas para o clima da África subsariana. Não têm isolamento, nem aquecimento central, nem lareira. Nas escolas, as crianças assistem às aulas de gorro de lã e casaco, o átrio das universidades está um gelo, nas paragens de autocarro rapa-se frio, no snack-bar convém não tirar as luvas. O inverno português é para os mais duros. Mas, os vikings optaram por fazer desta época a mais confortável do ano. Aquilo lá é só miminhos. Inventaram os assentos aquecidos no carro, inventaram o aquecimento nas ruas, inventaram o chão da casa de banho aquecido. Isso mesmo. Às vezes, na Noruega, eu chegava às aulas atrasada porque tinha ficado na casa de banho a aquecer os pés. Qualquer português que tenha que sair debaixo do edredon para ir à casa de banho em pleno inverno, consegue apreciar a genialidade desta invenção.

Quando comprei a minha casa em Lisboa, decidi que também teria invernos escandinavos: quentes e confortáveis. Mandei as paredes abaixo e instalei aquecimento central. Sabem aquele sofrimento de sair do quarto tórrido e ter que atravessar o corredor gelado? Eu jurei que nunca mais. Minha casa seria quente como um deserto, ninguém sequer usaria um casaco de malha, porque só de t-shirt se estaria confortável. Era o plano perfeito. Só me esqueci que em Lisboa é preciso ser milionário para pagar a conta do gás de um inverno confortável. Ah, estive tão perto. Quase, quase. Mas não me queixo. Afinal, eu sou uma portuguesa hiper-resistente ao frio.

(Imagem: Damene på broen, Munch, 1903)

39.-The-Ladies-on-the-Bridge-1903

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2 comments

  1. Eu estou a ler isto embrulhada num cobertor polar, com a gata no colo e o aquecedor a óleo por baixo do cobertor. São 15h e juro que lá fora deve estar menos frio. O aquecimento central só ligo em dias santos, depois das 20h, e mesmo assim a conta do gás dispara logo para os 300€.

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