Culpadíssima

Bem, tudo isto é um pouco contraditório. Por um lado, a ideia é que temos que trabalhar muito e bem, porque nada se consegue sem muito trabalho e sem muito esforço. O sucesso é importante e dizem, que sem trabalho, não há sucesso. Horas extraordinárias e proatividade e fins de semana, se for preciso. Então, levantamo-nos cedo e saímos de casa para ganhar dinheiro, de preferência muito, para podermos comprar todos os smartphones e tablets que é suposto ter, para pagarmos a água, luz, wi-fi e eletricidade, para comprarmos um carro de sete lugares e ecológico, para podermos viajar, para termos roupas chiques e suportarmos a mensalidade do ginásio. E para podermos ter uma casa grande, bonita, com jardim e mais não sei o quê. Trabalhamos muito para ter sucesso e, pelos vistos, o sucesso são todas estas coisas. Ninguém no seu perfeito juízo diria que é bem sucedido sem ter casa, carro, iphone e comida orgânica. Ou diria?

Por outro lado, a mensagem também é o oposto. As pessoas que trabalham muito, que se esforçam muito, os chamados ‘workaholics’ são, na verdade, uns falhados. Porque ser muito dedicado ao trabalho, afinal é não é uma coisa boa. O mesmo anúncio que nos quer vender um tablet, explica-nos as vantagens de passar os fins de tarde na praia e do dolce far niente. Mas, se passamos o fim do dia a beber caipirinhas frente ao mar, como arranjamos dinheiro para pagar o tablet? A coisa piora quando os workaholics são pais e mães. Não há nada pior que progenitores que se entregam com genica ao trabalho. E, que acabam por passar pouco tempo com os filhos, por não os acompanhar nas aulas de ginástica, por não ir às reuniões de pais, por não ajudar nos trabalhos de casa. Pior, por não compreender os filhos. Já viram de certeza estas personagens em alguma série de televisão: os pais trabalhadores. Os pais trabalhadores são o equivalente moderno dos espiões russos nos filmes da Guerra Fria. Gente diabólica que nunca faz nada bem.

Tudo isto é um pouco contraditório, porque parece que é suposto sermos tudo isto: trabalhadores dedicados e, simultaneamente, pessoas zen que estão em casa a fazer scones para o lanche das crianças. Como não conseguimos, passamos os dias embalados em complexos de culpa. É inevitável. Porque, por mais que façamos, falha sempre alguma coisa. Falhamos porque não vamos ao ginásio. Falhamos porque não damos fruta suficiente aos nossos filhos. Falhamos porque chegamos atrasados à reunião. Falhamos porque nos esquecemos do prazo para pagar a natação. Falhamos porque damos salsichas aos miúdos. Falhamos porque estamos a destruir a Amazónia. Falhamos porque estamos a acabar com a camada de ozono, e porque não ajudamos os refugiados, e porque contribuímos para a extinção do lince ibérico. Culpadíssimos. Todos os dias.

(Imagem: Bansky em 2011)

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