Mariana, a maior. Iá

Hoje foi o primeiro dia de Mariana na empresa. Sentou-se à minha frente entre as onze e as seis da tarde. Coisas que fiquei a saber sobre ela neste primeiro dia: Que fala com voz de homem, meio abrutalhada, e termina as frases com . Que pintou a cara com base cor de laranja, mas o pescoço ficou branco leitoso e sempre que se virava de perfil eu queria ir lá com a mão e esbater essa diferença, apagar esse risco que separava o maxilar do resto do corpo. Mas fiquei quieta, claro. Que adora filmes do Indiana Jones, mas não sabe explicar porquê, que acha que existem extraterrestres, porque é impossível estarmos sozinhos no universo, viu até um documentário sobre isso no Discovery Channel. Que não bebe leite, aliás não consome laticínios, acho que esperou alguma pergunta de seguimento, mas o tópico não me interessa, por isso ficámos por aí. Que apesar de não comer laticínios, nem carne, é fumadora, . Logo aí deu para perceber, Mariana, que qualquer coisa não está bem, mas não sei se vamos conseguir ajudar. Levantou-se quatro vezes para fumar lá fora, sem contar com o intervalo de almoço. E, o telefone não parou de tocar com apitos e mensagens, era o marido dando uma força no primeiro dia de trabalho. O marido chama-se Ricardo, é arquiteto, mas está desempregado, a vida está muito difícil. Que toda a vida morou nos subúrbios, nasceu e cresceu lá, mas agora mora no Chiado e sente-se totalmente do Chiado, adora morar no centro, não se conseguia imaginar a morar fora do centro, no centro há tudo, o centro é tão típico e as pessoas são mais fixes. Mariana tem pena das pessoas que moram nos subúrbios, não era capaz de voltar, . Que tem um filho que adora, que se chama Manel, que tem cinco anos, que está numa fase em que só quer ver desenhos animados, que o colégio dele é ótimo porque ensinam imensa arte – será que foi ele que pintou a cara dela com base cor de laranja, vai era era um projeto escolar – que o filho é alérgico a frutos vermelhos, mascarou-se de pirata no Carnaval e Mariana mostrou foto para comprovar. Era uma criança banal. Fiquei tambem a saber que Mariana fala demais. É, Mariana, foi informação a mais para um dia apenas. Fiquei sem vontade de saber mais sobre si. .

(Imagens: Skateboarding nos anos 50)

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