O segredo das relações longas

Hoje é 31 de agosto, dia da grande migração, e os gnus entopem de novo a segunda circular. Este ano, vêm meio deslavados, alguns parece mesmo que nem passaram na praia, que nem molharam os pés nas ondas, que nem se sentaram para comer ameijoas à bulhão pato numa tasca ao pé do mar. Eu, no banco do passageiro, vou arrancando os pêlos das sobrancelhas no espelhinho. São tão poucos, mas tão rebeldes. Nascem assim espaçados, sem nenhuma preocupação em crescerem todos juntos, em comunidade. ‘Plucking’ é o verbo que se usa em inglês para isso que eu estou a fazer e é perfeito. Porque ‘plucking’ tem a sonoridade certa. Pluck, pluck. Plucking my eyebrows e a pensar naquilo que se perdoa numa relação. Todos falam logo de traição, mas essa está debatida até à exaustão. Difícil é saber, por exemplo, se podemos desculpar alguém que diz que estamos gordas. Se comesses menos, talvez não estivesses com essa linha. Verdade. Ou que acha que usamos maquilhagem a mais. Ou que deixou de nos achar bonitas e interessantes. Que acha que dizemos barbaridades ou que somos ‘loucas’.  A gente habitua-se, diz a mulher no carro ao lado acendendo um cigarro. Como são insondáveis os segredos das relações longas.

(Imagem: Estive a rever Out of Africa e o espetacular guarda-roupa de Meryl Streep)

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