Ontem à tarde

Ontem, a minha amiga poetisa sentou-se na mesma esplanada que eu na Gulbenkian. Só que apesar do seu corpo ser magro e ressequido, havia algo que a inchava por dentro e não a deixava ver os outros. Não viu os turistas americanos que estudavam o mapa, nem a Jackie Kennedy que olhava as pombas por detrás dos óculos escuros, nem a inglesa de biquíni no relvado, nem as crianças que voavam como borboletas em câmara lenta. Nem me viu a mim, claro. Ela entrou como uma atriz do velho Hollywood, usando a camisa branca como uma capa misteriosa e caminhando nos ténis brancos como se pisasse uma passadeira vermelha. Com ela vinha outra rapariga. Muito alta, muito morena, muito vistosa. Tudo nela era ‘muito’. Até os lábios eram muito carnudos como se tivessem sido injetados artificialmente. Só que não tinham sido. Mesmo assim, a grande amiga da poetisa ocupava menos espaço que a própria poetisa, porque o seu ego não estava promovido ao tamanho de uma glândula exarcebada. Sentaram-se as duas na esplanada, fumando lentamente e sorvendo café e lendo alguma coisa. As duas em silêncio sem trocar uma palavra. Podiam ser irmãs. Podiam ser amigas. Podiam ser colegas de faculdade. Podia até ser que a maior fosse o escudo da mais pequena. Ou um vaso decorativo que a poetisa gostava de transportar e exibir. Até que o dia se quebrou em estilhaços e do céu caiu uma chuva. The End.

(Imagem: É isso mesmo, Jackie Kennedy em cima de um elefante na Índia em 1962)

Jackie Kennedy in India, 1962 (17)

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