O homem terrestre tem saudades do mar

O homem que vive na nossa rua – literalmente na nossa rua – era um homem terrestre até ao dia em que desceu de caravela a barriga de África, passou o Cabo das Tormentas e trouxe para casa todas as especiarias. Como não tinha smartphone não dá para saber como reagiu quando viu pela primeira vez as praias africanas, como eram aquelas gentes, se teve medo, se teve prazer, o que comia no barco, que música ouvia no mar alto, se tinha saudades de casa, se viu elefantes e quantos tubarões encontrou.

Ele próprio, regressado agora do século XV, nunca fala do que viu na primeira pessoa. Dos enjoos, do cheiro fétido a bordo e das aventuras no reino do Congo. Conta tudo como se fosse um livro de História, misturando datas e nomes compridos. Ele diz coisas assim: Foi com o experiente navegador Bartolomeu Dias que os navios portugueses conseguiriam cruzar o Cabo das Tormentas pela primeira vez no ano de 1488. Ainda conserva as roupas castanhas de marinheiro – rotas e gastas dos anos no mar – e tem os cabelos sempre espetados como se o vento os levantasse, mesmo quando não há brisas na cidade. Balança os ombros como se estivesse ainda no convés. Mas não está bêbedo. Só entaramelado. Ele trata-nos com condescendência. Com delicadeza. Fala sozinho. Pede dinheiro. Está sempre concentrado lá longe, procurando avistar um porto seguro. O homem terrestre só uiva porque tem saudades do mar.

(Imagem: Mapa de África por Sebastian Múnster, em 1554)1554munster (1)

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