Vai um cupcake?

Lembram-se de quando Lisboa era o paraíso dos cupcakes? Foi em 2010. Era uma coisa bem americana, mas de repente pegou cá e havia lojas a brotar nas esquinas e banquinhas nos centros comerciais. Uma vez arrastei uma amiga e nossos respetivos filhos até ao Bairro Alto para comer cupcakes num sítio tão in que nem tínhamos sítio para nos sentarmos. Acabámos por comê-los em pé no meio da rua. Os miúdos acharam-nos bonitos, mas disseram que sabiam a ‘açúcar’. Não percebi se isso era um elogio, mas parece-me que não. Quando se fala de sabores, ‘açúcar’ parece muito prosaico. Os cupcakes devem ter sido um negócio milionário, porque cada um custava o equivalente a quatro queques e, por mais boa vontade que houvesse, não passavam disso mesmo: um queque com uma cobertura duvidosa.

Depois os lisboetas cansaram-se de pagar fortunas por cupcakes manhosos – especialmente com tanto pastel de nata à venda – e instalou-se a loucura dos gelados. Era gelatarias artesanais a disparatar pela cidade fora. Com nomes italianos, cheias de tradição e opções de sabor nunca dantes imaginadas. Papaia, hortelã, café com cereja, limão com fios de chocolate. A febre foi tal que, nos dias que correm, é preciso ter cuidado pois podemos ser – a qualquer momento – apanhados numa conversa sobre gelados. O que dizem as pessoas nessas conversas? As pessoas perguntam coisas como: Gostas do pistacho da Nannarella? Ou: Preferes o morango ou a framboesa do Santini? Como é impossível conhecer todos os sabores e tê-los, literalmente, na ponta da língua, opto por mentir e parto do pressuposto que todos o fazem. Finjo que conheço todos os gelados e todas as gelatarias. De vez em quando lanço uma bomba como: O melhor chocolate é o daquela ali ao pé da Avenida de Roma, só para ver a reação. Costuma ser explosiva.

E também há as novas hamburguerias. E os novos bares de gin. E as novas padarias ‘tradicionais’. E o sushi de fusão. E a comida de rua em trotinetes da fruta ou em autocarros de dois andares. Podem ser pizzas, sanduíches, cachorros quentes. Que invenção. Um logotipo fixe e aventais a condizer e, quando damos por nós, estamos a pagar 5 euros por uma sandes desmaiada feita em pão seco. Mas, atenção. Leva cebola caramelizada.

(Imagem: O Sexo e a Cidade, o único sítio em que os cupcakes não são prosaicos)

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2 comments

  1. Farto-me de pensar nisto todos os dias…Como há espaço e estômago para tanta repetição e sim variação ? Mas ainda vou mais longe…Faz verdadeiramente falta comida de rua. De pegar e levar para comer num banco de jardim, ou numa sombra qualquer. Sim, também fazem falta banco s e lugares onde as pessoas se possam sentar. E relva sem ter cocós e xixis de cão.

    (PS: Mas o figo do Nannarela tens que provar)
    *

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