O casaco

Estive a deitar fora coisas do armário e não fui capaz de deitar fora ‘o casaco’. Sei que não vou voltar a usá-lo. Porque o corte e o material estão fora de moda. Porque deixou de fazer sentido na minha vida (Esta é profunda. Vou deixar ficar). É um casaco hippie e rebelde e, bem, esses dias já lá vão. Tenho uma secreta esperança que a minha filha o queira nos anos boémios que se avizinham. Que bonito. Uma ‘secreta esperança’.

Comprei ‘o casaco’ na H&M em Boston, no ano 2000, mesmo no princípio do Outono. Custou 100 dólares, que era muito – mesmo muito – dinheiro, mas não resisti. Como vivia com orçamento de estudante, podem imaginar como foi fulminante a minha paixão. Era domingo, fim de tarde, e quando saí da loja atravessei um parque. Ia com alguém – acho que um rapaz – mas não lembro quem. Lembro-me sim que chegou um vento frio e já havia folhas amareladas no chão. Ainda não era tempo de agasalhos de pêlo, mas aproveitei a deixa e vesti logo o casaco. E só voltei a tirá-lo em abril.

‘O casaco’ foi a peça de roupa que tive mais bem sucedida. Nos Estados Unidos – onde eu morava na altura – as pessoas não se acanham e metem conversa com toda a gente. Não é engate, nem tentativa de venda. É conversa mesmo. Pois, durante o inverno de 2000, em Boston, fartei-me de fazer amigos à conta ‘do casaco’. Where did you get it? Usei-o depois em Nova Iorque e, mais tarde, em Lisboa. Usei-o o mais que pude e amortizei aqueles 100 dólares que, divididos por três ou quatro invernos, baixaram o preço do casaco para algo irrisório como vinte cêntimos por dia. Foi um dos casacos mais baratos que tive.

Passado uns anos comprei outro, mas não me lembro qual. Algo insignificante, sem o mesmo impacto. Guardei ‘o casaco’ no armário, porque tinha a certeza que voltaria a usá-lo, talvez no inverno seguinte. Ou que ficaria no guarda-roupa à espera de uma ocasião merecedora, como um prato especial que o restaurante só serve às quartas-feiras. Os anos passaram. A minha mãe mandou lavá-lo a seco. E está ainda pendurado no meu armário. Limpo, embrulhado no saco de plástico de lavandaria. À espera de uma hippie rebelde.

(Imagem: Não era este, mas… que fixe. Mais aqui)

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