Manicure: Absolutamente principiante

Um lisboeta que viajasse numa cápsula do tempo e aterrasse no centro da cidade vindo de 1985 ia ficar estupefacto com a quantidade de restaurantes chineses, ‘padarias portuguesas’ e manicures que se espalharam pela cidade mushroom style. Há trinta anos, quem queria comer chinês ia ao Nova Ásia em Alvalade ou ao Jade, as padarias eram mesmo portuguesas (e não precisavam de o apregoar) e as manicures eram um serviço oferecido nos cabeleireiros a senhoras dondocas.

Hoje, as banquinhas de ‘nails’ multiplicam-se onde haja espaço livre. Quando eu era miúda, a minha mãe tinha uma única amiga que usava as unhas encarnadas, muito compridas. Chamava-se Isabel. Quando jantávamos com ela, eu nem me conseguia concentrar na comida, ficava hipnotizada a ver os movimentos coloridos dos dedos a pegarem nos talheres. A minha mãe gostava muito da sua amiga, mas achava aquela opção estética de ‘gosto duvidoso’ e não voltei a pensar nisso.

Hoje em dia, lamento informar, faço parte da minoria. Pintar as unhas já não é apenas para senhoras dondocas. É para toda a gente. Até para as miúdas de sete anos. E, em qualquer reunião de trabalho, sou a única mulher com unhas au naturel (pior, a única com unhas roídas). E, já não é suficiente pinta-las de encarnado. Agora, o catálogo da Robiallac é o limite. Verde, azul, amarelo, preto, taupe, maracujá, beringela, orquídea azul, ‘sol da meia noite’, ‘manhã de nevoeiro’, ‘cozinheira chanfrada’ e ‘budista amargo’ são alguns dos tons disponíveis. Não me perguntem o que isto quer dizer, eu sou capaz de comprar verniz só por achar graça ao nome da cor.

Eu sei que há quem arranje as unhas em casa, mas eu era muito limitada a trabalhos manuais e esse tipo de habilidades não é para mim. A única vez que fui arranjar as unhas a um ‘sítio a sério’ senti-me inferiorizada. A senhora mostrou-me um catálogo com milhões de tons. Como é que as pessoas tomam decisões complexas destas todos os dias? Quando vos perguntarem se há mais estrelas no céu ou grãos de areia, a resposta correta é ‘há mais cores de vernizes para pintar as unhas’. Fiquei atordoada e fui pela escolha óbvia – encarnado. A senhora percebeu que estava perante uma principiante e ficou visivelmente desiludida. Talvez para a próxima escolha algo mais atrevido.  Eu sorri, já com as mãos suadas. E o que vamos fazer hoje? Pois, não basta dizer ‘quero pintar as unhas’. Isso já não se usa, aparentemente. Agora podemos optar por unhas de gel, gelinho, verniz de gel. Entreguei-lhe as minhas unhas pacientemente e saí com as mãos de outra pessoa. Eram as mãos da amiga da minha mãe. De um momento para o outro, eu era uma adulta.

Tinha hora marcada na manicure para daí a duas semanas. Para ‘manutenção’. Mas, fazendo as contas, percebi que uma hora de duas em duas semanas seriam 26 horas ao fim do ano. Um dia inteiro e mais uns trocos. E, por mais que as mãos da Isabel me hipnotizassem, acho que não estou pronta para esse tipo de compromisso. Não vai dar.

(Vídeo: Absolute Beginners com David Bowie)

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